09 março 2009

E se Deviz se obama? (4)


Ora, é possível que haja muita gente a desejar que algo mude no nosso país, muita gente confrontada, faz anos, com um mesmo tipo de discurso político - vago, nebuloso, não importa o emissor -, com um mesmo tipo de práticas, gente eventualmente preocupada com a distância crescente entre esses discursos e essas práticas e as desigualdades sociais, as injustiças sociais. Um novo partido, uma vincada postura de honestidade por parte dos seus dirigentes, uma aposta de real mudança e, especialmente, a capacidade de transmitir, em permanência, o sonho da mudança, podem constituir um atractivo forte, magnético, capaz de criar uma nova identidade, uma nova maneira de olhar a vida, de lhe dar um sentido, uma reciclagem de hábitos e de atitudes.
Mas colado ao desejo da mudança e de uma nova identidade, há, também, possante, o desejo de ascensão social, especialmente por parte dos jovens, em particular dos jovens formados. A Frelimo tem uma enorme vantagem sobre os outros partidos: gere os aparelhos do Estado e aqui pode, periodicamente - fazendo ascender, alternar ou rodar -, premiar os cumpridores, remunerar a vassalagem, multiplicar os apoios. Aos partidos da oposição resta, apenas, o sonho permanente e regra geral distante dos municípios e da Assembleia da República.
(continua)

MDM


Segundo o "Notícias" de hoje: "Captar, exprimir, reflectir e veicular o sentimento, vontade e preocupações dos cidadãos e grupos sociais marginalizados, desiludidos, não identificados e nem representados nas actuais formações partidárias constitui um dos grandes objectivos do recém-criado Movimento Democrático de Moçambique". E, a propósito desta nova formação política liderada por Deviz Simango, edil da Beira, acrescenta que ontem cerca de sete mil pessoas estiveram num showmício ocorrido no bairro da Munhava, periferia da cidade da Beira.
Adenda: permitam-me sugerir-vos que leiam o fascinante dossier sobre Deviz Simango, aqui, no "Notícias".

08 março 2009

Maputo: 2 linchados acusados de feitiçaria

Segundo a TVM em nota de rodapé no seu noticiário das 20 horas de hoje, dois indivíduos foram linchados à catanada em Maputo acusados de serem feiticeiros. Obrigado ao Cremildo, um dos meus assistentes, por me ter chamado a atenção para a notícia. Procurarei obter mais pormenores.
Adenda 1 a 09/03/09: o caso ocorreu ontem na Matola-Gare, província de Maputo. Estão detidas cinco pessoas (Rádio Moçambique, noticiário da meia-noite; porém, não consegui fixar outros pormenores).
Adenda 2: a história surge contada pela TVM, aqui. Alguém quererá comentar, depois?
Adenda 3 a 10/03/09, 7:35: conheça a versão do "Notícias" aqui.

8 de Março

Bem, hoje, neste dia, Dia Internacional da Mulher, permitam-me assinalá-lo de forma diferente: sugerindo que leiam ou recordem uma série que escrevi em Julho de 2007 com o título Das mulheres de Bourdieu às mulheres de Touraine, aqui. Beijo a todas!

Crise social e bodes expiatórios (4)

Mais um pouco da série.
Regressando ao trabalho do "Domingo", já citado anteriormente, para termos ideia (1) do contexto no qual nasce e medra a crença de que alguém amarra a chuva no céu e (2) a quem a administradora de Nicoadala atribui as culpas da crença: "Isso aconteceu na medida em que a população estava desesperada devido à falta de chuvas. Quando eles observam algumas pessoas que têm mínimas condições de vida, interpretam isso de forma supersticiosa. Dizem que aqueles que têm impedem que a chuva caia na machamba dos outros, foi desta forma que a administradora de Nicoadala, visivelmente chocada, descreveu o crime em Nicoadala. Para a administradora, a população foi enganada pelos macangueiros (adivinhos). Foram eles que fizeram as adivinhas, disse Sebastiana Lúcio, lamentando a morte de pessoas inocentes (....). De ressalvar que as reservas alimentares estão efectivamente a diminuir em grande parte das zonas atingidas pela onda de saques e mortes, problema que poderá agudizar-se durante os próximos dois meses. A região onde foram reportados tumultos por falta de chuvas tem a tradição de produzir arroz e coco. O coco debate-se com o problema do amarelecimento letal. Os coqueiros estão a morrer. As pessoas no momento em que as reservas alimentares se esgotavam recorriam ao coco. Levavam o coco, vendiam e compravam farinha ou peixe. Não havia nenhum problema, explica a administradora Sebastiana (...) Essa falta de alimentação não é de uma casa só. Se esses todos reclamam e vem alguém dizer olha vocês não estão a ver que quem está a comer é o fulano, o tal que esconde a chuva, as pessoas são facilmente enganadas, porque costuma-se dizer onde há fome todos ralham e ninguém tem razão, esclarece a administradora." (p. 19).
O jornal reporta que muitas detenções já foram efectuadas e que prossegue a busca policial a outros responsáveis pelos "tumultos ocorridos nos distritos de Namacurra e Nicoadala", província da Zambézia.
(continua)

Crise social e bodes expiatórios (3)

Mais um pouco desta série, enquanto não prossigo a série com o título Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu.
Qual é o quadro social no qual medram crença e rumor?
O seguinte: mortes em excesso (cólera; precisaríamos estudar o significado das mortes contínuas por despojamento da vida social através dos fluidos, matriz da crença no chupa-sangue), privação geral, privação agrícola em particular (chuva amarrada no céu).
Façamos uma síntese de quatro figuras de imputação causal:
* Populares/camponeses: é o Estado, são os abastados e são os diferentes quem prende a chuva no céu e quem - mais os socorristas - dissemina a cólera através do cloro;
* Certa imprensa/produtores de artigos de opinião: a ignorância e a desinformação são as mães da crença de que a chuva é intencionalmente presa no céu pelo Estado, pelos abastados e pelos diferentes e de que a cólera é intencionalmente introduzida através do cloro;
* Reportagem do jornal "Domingo": é o curandeiro quem orquestrou tudo no caso da chuva amarrada no céu;
* Estado: é a Renamo quem desinforma no caso da cólera.
(continua)

Crise social e bodes expiatórios (2)

Eis o cabeçalho do excelente trabalho do "Domingo" referido no número anterior: "Na machamba dele sai alguma coisa, mas na minha não sai nada. Como é que o meu vizinho está a comer e eu não?" Esta pergunta explica tudo. Nela gravita o crime cometido em Maquival, Zambézia, onde em nome da chuva, alguns moçambicanos forma mortos, sem contemplações, sem remorsos, alegadamente porque estavam a guardar a dita chuva apenas para eles e respectivas famílias. Num misto de inquietação, luto e fome, viúvas e viúvos choram hoje os seus mortos. Os feridos recuperam no hospital, sem que a chuva caia, apesar da tragédia já consumada"(p. 18).
Nesse trabalho foi escrito o seguinte: "Quem industriou isso tudo foram curandeiros". Portanto, o bode expiatório é, agora, não a Renamo - como caso da cólera -, mas o curandeiro.
Mais à frente, foi ainda escrito que os camponeses linchadores são pessoas "Tomadas pela ignorância e pelo obscurantismo" e que "a ignorância é aguda".
(continua)

Crise social e bodes expiatórios (1)


Entre Junho de 2002 e Maio de 12003, na província de Cabo Delgado, distrito de Muidumbe, 18 pessoas foram linchadas, acusadas de comandarem magicamente sete leões que comeram 46 habitantes. Todavia, os principais acusados de comandarem os leões à distância eram pessoas bem distintas: o administrador distrital, os régulos, membros do partido no poder, um comerciante, etc.
Não chove em Ionge, não chove na Zambézia, os habitantes acusam o Estado, os abastados e os simplesmente diferentes de prenderem a chuva no céu. Há comoção social, linchamentos.
A cólera afecta várias províncias, em Cabo Delgado, Nampula e Zambézia populares acreditam que o Estado e todos aqueles que procuram combater a cólera são os seus reais introdutores. Por sua vez, o Estado acusa a Renamo de ser a responsável pela "campanha de desinformação". E assim estamos em meio a uma grande comoção, em busca desesperada de bodes expiatórios.
Ora, em meu entender, ninguém melhor do que René Girard descreveu o pensamento, o imaginário social e os mecanismos de imputação causal que surgem (e regra geral desaguam no linchamento sacrificial), na história da humanidade, em momentos de crise, especialmente através do livro cuja capa e contra-capa estão em epígrafe (clique duas vezes com o lado esquerdo do rato sobre as imagens para as ampliar). No nosso país, tive-o em conta quando escrevi Cólera e catarse, livro publicado em 2003.
Entretanto, aguardem que eu prossiga a minha série com o título Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu.
Adenda: com o título "Matar em nome da chuva", o semanário "Domingo" tem hoje um excepcional trabalho de reportagem da autoria de Bento Venâncio, ocupando as suas páginas centrais. Lá está todo o drama de comunidades "a braços com uma fome exacerbada pela falta de coco e cereais" (pp. 18-19; voltarei a este trabalho). Honestamente, o jornal não atribuiu à Renamo a responsabilidade pelo boato. Da mesma forma o "Notícias" não tem atribuído à Renamo a autoria da "campanha de desinformação" no tocante à cólera. No meu livro sobre a cólera social - anteriormente referido -, provei que o boato de que o Estado queria matar as pessoas introduzindo o cloro na água era completamente independente das filiações partidárias. Leiam-no e verão o cenário de privações de todo o tipo que estavam à retaguarda do boato surgido - boato-linguagem errada para expressar um problema verdadeiro.
(continua)

Dhlakama, o confiante

O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, declarou ontem que o Movimento Democrático de Moçambique, presidido por Deviz Simango, não vai alterar o xadrez político do país, pois - sustentou - Frelimo e Renamo continuarão a ser as maiores forças políticas. O MDM não terá expressão mesmo em Sofala - disse. Enquanto isso, Maria Moreno, chefe da bancada parlamentar da Renamo, afirmou, também ontem, que o seu partido está enfraquecido e desmotivado (noticiário da meia-noite da Rádio Moçambique).
Adenda a 08/03/09, 18:25: entretanto, a Renamo reuniu-se ontem para traçar uma estratégia para as próximas eleições. O seu porta-voz, Fernando Mazanga, reconheceu haver dificuldades no partido, mas afirmou que o surgimento do MDM era produto do sucesso da Renamo. Confira aqui.
Comentário: é provável que o Sr. Mazanga se tenha esquecido de colocar o "in" atrás do "sucesso".

07 março 2009

Boato da cólera: linchados em Nampula três socorristas da CVM e dois polícias

De acordo com TheEarthTimes, a Cruz Vermelha de Moçambique afirmou ontem que suspendeu o seu trabalho em Mongincual, norte da província de Nampula, depois que três dos seus socorristas voluntários forma mortos por multidões que os acusaram de introduzir a cólera na região. Dois polícias que procuraram salvar os socorristas forma igualmente mortos. Mais de 100 pessoas morreram já de cólera em Nampula. Confira aqui e aqui. Enquanto isso e segundo a TVM, o vice-ministro do Interior, José Mandra, acusou a Renamo, partido na oposição, de ser a responsável pela "campanha de desinformação sobre a cólera" nas províncias de Zambézia, Nampula e Cabo Delgado. Confira aqui. Antes dele, foi a vez do administrador do distrito de Angoche, José Amade ("Magazine Independente", 04/03/09, p. 10).
Adenda 1 às 23:22: recorde esta notícia sobre o distrito de Memba, datada de 2001, no então Moçambique on-line, aqui.
Adenda 2 às 23:27: saiba do boato que surgiu na Inglaterra em 1832 quando a cólera se disseminou no país e vários médicos foram acusados de assassinato deliberado dos doentes "para pôr em prática técnicas de dissecação de cadáver e aprimorar seus conhecimentos de anatomia". Aqui, na secção "A cólera se alastra".
Adenda 3 às 23:52: boatos concernentes à cólera e à acção governamental também são ciclicamente encontrados nas grandes epidemias de cólera registadas na Índia, por exemplo - Misra, Kavita, Productivity of Crises/Disease, Scientific Knowledge and State in Africa, in Economic and Political Weekly (Mumbai), October 28, 2000, pp. 3892-3893. Ora, tanto quanto eu saiba, a Renamo não habitava a Inglaterra oitocentista e não habita a Índia de hoje.

Azagaia em espectáculo do MDM

O rapper Azagaia deve estar neste momento a actuar no espectáculo de apresentação popular no populoso bairro da Munhava, periferia da cidade da Beira, do Movimento Democrático de Moçambique, ontem constituído.

Prepositado acidente com viatura de Tsvangirai?

De acordo com a CNN, o primeiro-ministro do Zimbabwe, Morgan Tsvangirai, acredita que foi deliberadamente que o condutor do camião envolvido no acidente de ontem chocou com a sua viatura, matando a sua esposa. Confira também aqui e aqui.
Adenda às 20:35: porém, o camião em causa pertencia à USAID. Confira aqui em francês.

A residência do administrador

Anda bicudo, dramático problema com a reabilitação da residência do administrador de Mutarara, província de Tete. Se os custos orçavam antes em quatro milhões de meticais, agora orçam em mais de dez milhões. Mas por quê tanta preocupação com este fenómeno que ocupa seis generosas colunas na página 6 do "Notícias" de hoje? Explicação do jornal: "A medida surge na sequênciua da próxima visita do Chefe do Estado a Tete, ainda este semestre, que inclui uma deslocação àquele distrito a sul da província".

22 milhões de mulheres poderão ficar desempregadas este ano

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, 22 milhões de mulheres poderão ficar desempregadas este ano devido à crise financeira mundial. Confira aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.

A "hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual vos dou, desde já, dois aperitivos:

06 março 2009

Hoje : faleceu Susan Tsvangirai


Faleceu hoje Susan Tsvangirai, esposa do primeiro-ministro do Zimbabwe, vítima de um acidente de viação. Paz à sua alma.
P.S.- Obrigado ao V.I. por me ter chamado a atenção para tão infausto acontecimento.

Deviz, presidente do MDM


Notícia que acabou de me chegar: acabou a votação para a presidência do Movimento Democrático de Moçambique, Deviz Simango é o presidente. O Conselho Nacional tem 60 membros.

Mediocridade e ensino superior

Esta noite MDM terá presidente

Um jornalista sediado na Beira acabou de me informar que esta noite saber-se-á quem será o presidente do Movimento Democrático de Moçambique, cuja conferência constitutiva decorre em Nazaré, periferia da cidade da Beira. Há sete candidatos, mas a favoritismo vai para Deviz Simango. Entre os convidados, há um militante do PSD português.
Adenda às 18:21: fonte ligada à conferência, acabou de me informar que já foi eleito o Conselho nacional com 60 membros. Segue-se, agora, a eleição do presidente.

Gestação do MDM

O eng.° Noé Nhantumbo descreve hoje no "Canal de Moçambique" a gestação do Movimento Democrático de Moçambique em Nazaré, periferia da cidade da Beira.
Adenda 2: tenho para mim que a matriz simbólica dos actos linchatórios (purgar, expurgar, retemperar, reequilibrar, expulsar, purificar) também ocorre nos partidos políticos.
Adenda 3: Bulha e os seus pares foram as ovelhas sacrificiais, os bodes expiatórios do linchamento purificador. Eles não foram afastados pelo Comité Provincial de Sofala, mas pela Comissão Política da Frelimo, a mais alta instância decisória do partido. A composição do elenco de transição mostra bem quão pesada foi a mão interventora. Tempo de urgência, tempo de decisões drásticas.

De novo sobre o Hip-Hop

A propósito de uma postagem minha sobre o Hip-Hop, o rapper Dyze escreveu um longo comentário do que extractei o seguinte: "Eu mantenho-me na linha dura. Não preciso do hip-hop pa comer. Trabalho noutra coisa, e faço hip-hop por amor, por consciência. Isso leva-me a ser um crítico de muita coisa que se passa dentro e fora do movimento. Sou admirador de Azagaia, Valete, Immortal Technique, Dilated Peoples, Psycho Realm. Rappers que rimam a vida diária como um tormento, com o sonho de um dia a tornar melhor. Rappers que nos inspiram a combater as dificuldades sem nos vergarmos ao poder dos mais fortes, dos mais ricos...Para mim, hip-hop é luta! E como diz aí um amigo noutro post, ainda não vimos nem metade do que este movimento pode fazer. Com a situação actual, com a classe média a roçar pobreza, o alvo do hip-hop deixa de ser uma pequena faixa da população para passar a ser a maioria. E aí todos vão perceber do que é que falamos...e já não nos vão considerar marginais!"

Dois linchados na Matola

Adenda: devo confessar que já perdi a capacidade de manter em dia a estatística dos linchados em Moçambique. A última vez que tentei isso foi aqui. Entretanto, saiba um pouco sobre a morte de dois polícias em Angoche, província de Nampula, por manifestantes convencidos de que as autoridades locais os estão a matar introduzindo a cólera através do cloro. Aqui.

05 março 2009

Para vós

Sofala: epicentro político

Foi afastado o elenco político da Frelimo em Sofala, dirigido pelo empresário Lourenço Bulha. O partido colocou lá, provisoriamente, alguns dos seus nomes público sonantes. Esse um tema abordado por muitos jornais.
Pela primeira na história política do país, candidatos da Frelimo (Bulha) e da Renamo (Manuel Pereira) foram vencidos nas eleições autárquicas por um político jovem e prometedor, Deviz Simango.
Não surpreende, portanto, que ambos os partidos tenham operado alterações nas suas direcções ao nível de Sofala. E, no caso da Frelimo, em força.
Tenho para mim que o teatro político das eleições legislativas e presidenciais deste ano terá Sofala como seu epicentro (bem duro, antevejo), apadrinhado pelas províncias da Zambézia e de Nampula.

E se Deviz se obama? (3)


Mais um pouco desta série.
Tenho por hipótese - fruste, é bem de ver - que um partido político é a confluência de três coisas naqueles que para lá vão e nele militam:
Em primeiro lugar, o desejo de fazer mudar algo;
Em segundo lugar, o desejo de uma nova identidade, colectivamente partilhada;
Em terceiro lugar, o desejo de ascensão social.
Então, nesta hipótese, temos o mundo dos ideais, o mundo do social reconfigurado e o mundo premente do dia-a-dia.
Adenda: sobre Deviz, leia aqui na Voz da América.

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (9)

Mais um pouquinho desta série.
No penúltimo número dei-vos a conhecer a remota desconfiança aldeã em relação aos processos de acumulação. Todo aquele que sobressaía em meio à pobreza local era acusado de feitiçaria. A tese era a de que o seu enriquecimento só poderia ter acontecido à custa da comunidade.
No último número dei-vos conta de que os chefes eleitos a nível aldeão eram aqueles que mais posses tinham e que o seu reinado (cito) "durava enquanto tivessem com que gastar com a comunidade. Eram obrigados a tudo gastar: comida, pombe, jóias, tecidos, etc. Quando nada mais lhes restasse, eram destituídos e passavam a pertencer ao grupo dos grandes por mérito, com direito ao uso de um chapéu de palha e de um bordão".
Ao fazer uso do tecto da história, a minha ideia é a de mostrar que certas crenças, que um certo padrão da imaginário social no nosso país, são bem anteriores aos tempos em que estamos e que provavelmente permanecem como uma espécie de arquétipos junguianos, de um inconsciente colectivo que, volta e meia, ressurge. Não apenas em Moçambique, mas um bocado por todo o nosso continente. E creio que cada vez mais. As sociedades de hoje não são as dos séculos XVI e XVII, são, naturalmente, bem mais complexas, bem mais desiguais, mais flagrantemente desiguais. E é por isso que a crítica dos processos de acumulação de riqueza - por parte de jovens bloqueados na ascensão social, que ao mesmo tempo criticam a acumulação e a exigem - é, hoje, bem mais aguda em África. Mais do que podemos pensar, o mundo da feitiçaria concernente aos processos de acumulação de riqueza é bem moderno, bem agudo. Regressarei a este tema lá mais para a frente.
No próximo número tenciono falar-vos da crença na chuva intencionalmente amarrada do céu devido à olowa (acção) de um ou de uma mukwiri (portador ou portadora do Mal), lá para os lados da Zambézia. E a partir daí tentarei mostrar que a feitiçaria é, frequentemente, uma linguagem política. E, volto a repetir, bem moderna, cada vez mais moderna e interventora.
(continua)

Obama renova sanções contra o Zimbabwe

A BBC reportou que o presidente norte-americano, Barack Obama, renovou por mais um ano as sanções contra o Zimbabwe. Leia os motivos invocados aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, por me ter enviado a referência.

Optimismo de Cossa

Optimista, Pedro Cossa, porta-voz da polícia, afirmou ao "Notícias" que o crime violento está a decrescer, que o plano de combate foi realizado em 74% e que os bandidos estão a abandonar as cidades. Confira aqui.
Questão: teria sido interessante, entre várias coisas, que Cossa se tivesse pronunciado sobre os assassinatos em zona rural por acusação de feitiçaria, assassinatos que nada têem de doce e que não têm cobertura regular nos mídia. Especialmente assassinatos de mulheres.

Mouzinho avisa

Comunidades sem fecalismo a céu aberto

Segundo o "Notícias" de hoje, 34 comunidades dos 18 distritos das províncias de Sofala, Manica e Tete foram galardoadas no município de Dondo, Sofala, "por terem sido consideradas livres do fecalismo a céu aberto", ao abrigo de um programa financiado pela UNICEF e pelo governo dos Países-Baixos em mais de 40 milhões de dólares norte-americanos. O ministro das Obras Públicas e Habitação, Felício Zacarias, afirmou que "as pessoas nos diziam que nós tínhamos que nos preocupar em dar comida e não sobre o que sai de trás (fecalismo) e nós dissemos que isso também é importante."