Sonhadores, os sociólogos sempre procuraram duas coisas: as leis do social e a reforma das sociedades. Cá por mim busco bem pouco: tirar a casca dos fenómenos e tentar perceber a alma dos gomos sociais sem esquecer que o mais difícil é compreender a casca. Aqui encontrareis um pouco de tudo: sociologia (em especial uma sociologia de intervenção rápida), filosofia, dia-a-dia, profundidade, superficialidade, ironia, poesia, fragilidade, força, mito, desnudamento de mitos, emoção e razão.
10 novembro 2006
Voltarei à "Maboazuda" hoje
Na sequência do que o Savana tem publicado sobre Maboazuda, a famosa canção de Zico, retomarei aqui hoje a letra, aprofundando o processo de desqualificação que, em meu entender, a permeia por inteiro.
09 novembro 2006
Liderança comunitária em Maputo
Veja um trabalho com o título em epígrafe de Morten Nielsen, doutorando dinamarquês e investigador associado do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, no blog da Unidade de Diagnóstico Social.
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http://www.unidadediagnosticosocial.blogspot.com
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"Pineu! Deita pineu!" amanhã no "Savana"
18 linchados nos últimos 2 meses

De acordo com um oficial da polícia, Sr. Abílio Quive, citado pelo "Canal de Moçambique", 18 pessoas foram linchadas nos últimos dois meses* na periferia de Maputo, a maior parte das quais estava inocente. O oficial disse que anda à procura dos autores dos linchamentos, que não são honestos, não residem nos bairros onde se registam os linchamentos e são criminosos que incitam as populações tirando partido do "efeito emotivo". O Sr. Quive disse ainda que a população honesta não comete linchamentos e trabalha com a polícia.
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http://www.canalmoz.com/default.jsp?file=ver_artigo&nivel=1&id=6&idRec=1156
*A notícia menciona 18 linchados, mas oscila na temporalidade: nos últimos três meses (2.º parágrafo) e nos últimos dois meses (10.º). Optámos pela último registo dado pertencer ao discurso directo do Sr. Quive.
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Estamos confrontados com uma clara teoria complotária, que é fácil de resumir: se não fossem os malfeitores, não haveria linchamentos pois a população é honesta e colabora com a polícia. Basta apenas expurgar os malfeitores dos bairros periféricos de Maputo para tudo voltar à normalidade.
08 novembro 2006
Mediocridade
Quando criticamos algo, alguém, uma postura, uma intervenção, etc., abstraímos regra geral da estrutura radicular, capilar, rizomática, que acolhe e irriga e homologa tudo isso.
Nada é medíocre se não houver um solo que acolha a mediocridade, que mediocretize.
Solo? Nem de solo nem de cérebro a mediocridade carece afinal: nasce e vive por geração espontânea.
Nada é medíocre se não houver um solo que acolha a mediocridade, que mediocretize.
Solo? Nem de solo nem de cérebro a mediocridade carece afinal: nasce e vive por geração espontânea.
A santíssima trindade dos positivistas
Os positivistas, declarados ou disfarçados, regem-se pela santíssima trindade seguinte:
1. A sociedade é comandada por leis independentes da vontade e da acção humanas;
2. Sendo as leis naturais, a sociedade pode ser estudada com os mesmos métodos das ciências da natureza;
3. As ciências sociais, tal como as da natureza, devem rigorosamente cingir-se à observação, à análise e à explicação neutras, objectivas, isentas de julgamentos de valor e de ideologias.
Armados com a santíssima trindade, os cientistas sociais positivistas fazem ciência tão naturalmente como o Sr. Jourdain fazia prosa: sem o saber.
1. A sociedade é comandada por leis independentes da vontade e da acção humanas;
2. Sendo as leis naturais, a sociedade pode ser estudada com os mesmos métodos das ciências da natureza;
3. As ciências sociais, tal como as da natureza, devem rigorosamente cingir-se à observação, à análise e à explicação neutras, objectivas, isentas de julgamentos de valor e de ideologias.
Armados com a santíssima trindade, os cientistas sociais positivistas fazem ciência tão naturalmente como o Sr. Jourdain fazia prosa: sem o saber.
O casal sensação segundo a tvzine

No seu n.º 46 deste mês, a tvzine, revista do jetset nacional, apresenta em capa e nas pp.8-9, o que chama casal sensação: Lizha James, rainha do ragga que afirma ter em preparação um single chamado Moçambique, com ragga misturado com "os nossos sons" dando origem ao Panza; Bang (Ederson Mourinho), empresário e noivo de Lizha, com o seu ar de matador americano de charuto e óculos vai-a-rachar, que afirma ter por vezes "que lhe dizer (à Lizha, CS) que se usar uma saia curta vai ficar a matar". Acresce que Bang não só quer que Lizha lhe dê seis filhos como, também, deseja entrar na moda, no fashion show: diz já ter uma loja de roupas e bijutaria brasileira e sonha "dar um salto aos Estados Unidos".
Tudo muito comovente, sem dúvida.
E fascina-me o antetítulo da capa da tvzine a propósito do casal: "Saiba o que sempre quis saber". Como é possível eu não ter nunca sabido o que sempre, afinal, quis saber?
Unidade de Diagnóstico Social
Veja a mais recente entrada no blog da Unidade de Diagnóstico Social do Centro de Estudos Africanos.
As nossas portas estão abertas a quem quiser participar, todas as quartas-feiras entre as 12 e as 14 horas, campus universitário, 1.º andar.
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http://unidadediagnosticosocial.blogspot.com
As nossas portas estão abertas a quem quiser participar, todas as quartas-feiras entre as 12 e as 14 horas, campus universitário, 1.º andar.
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Imprensa Universitária da UEM reforça-se
A Imprensa Universitária da Universidade Eduardo Modlane adquiriu uma moderna máquina industrial para impressão de livros, esperando receber uma outra brevemente. A qualidade gráfica vai, desse modo, ser grandemente melhorada.
Foi com prazer e honra que hoje pude visitar a nova máquina, a convite do Presidente do Conselho de Administração da Fundação Universitária, Doutor Luís Cezerilo.
Foi com prazer e honra que hoje pude visitar a nova máquina, a convite do Presidente do Conselho de Administração da Fundação Universitária, Doutor Luís Cezerilo.
Oposição desposicionada

Representando o Bloco da Oposição Construtiva (uma coligação de pequenos partidos sem expressão votal no país), o seu presidente, Sr. Ya-qub Sibindy (na foto), do partido PIMO, entregou ontem ao Partido Frelimo, no poder, 17.786 meticais, em apoio aos IX Congresso deste partido.
O Bloco deu, assim, um notável exemplo das fragilidades da oposição política no país.
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Fotografia do "Notícias" de hoje, 08/11/06, p. 3.
http://www.jornalnoticias.co.mz/pt/topoption/53
07 novembro 2006
99.º lugar para Moçambique na corrupção mundial
O nosso país ocupa o 99.º lugar com o índice 2.8 numa escala entre 0 e 10 de uma lista de 163 países segundo o Index de Percepções de Corrupção 2006, lançado ontem pela Transparência Internacional (TI). O zero indica elevados níveis de percepção de corrupção e o 10, baixos níveis. O relatório da TI mostra uma forte correlação entre pobreza e corrupção. Os países com menores percepções de corrupção são a Finlândia, a Islândia, a Nova Zelândia e a Dinamarca.
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http://www.transparency.org/
http://www.transparency.org/news_room/in_focus/cpi_2006/cpi_table
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http://www.transparency.org/
http://www.transparency.org/news_room/in_focus/cpi_2006/cpi_table
06 novembro 2006
Prontos!
-As coisas são assim e prontos!
Ah, como é pronto este prontos! Mas por que razão as coisas são mesmo assim e não de outra maneira? Por que razão as coisas parecem tão óbvias, tão evidentes? Serão mesmo óbvias, evidentes, dispensadoras de análise?
O óbvio é um exercício de preguiça que nos dá o conforto botânico. Ou mineral.
Ah, como é pronto este prontos! Mas por que razão as coisas são mesmo assim e não de outra maneira? Por que razão as coisas parecem tão óbvias, tão evidentes? Serão mesmo óbvias, evidentes, dispensadoras de análise?
O óbvio é um exercício de preguiça que nos dá o conforto botânico. Ou mineral.
Prognóstico
Dentro de dez anos, o capital chinês estará casado com o capital indiano no domínio da economia moçambicana, com um centro redistribuidor na África do Sul.
Diário de um sociólogo 2 e segundo livro de poesia
Entregarei este mês à imprensa universitária da Universidade Eduardo Mondlane o "Diário de um sociólogo 2" (aqui penso sentindo) e o segundo livro de poesia (aqui sinto pensando), ainda sem título. Mais dois blooks. Uau...
04 novembro 2006
Na Moamba: cidadão acusado de violar sexualmente uma burra

No distrito da Moamba, província de Maputo, um indivíduo de 54 anos encontra-se em dificuldade por ter sido encontrado a ter relações sexuais com uma burra, em crime considerado de ultrage à moral pública.
O proprietário do animal apresentou queixa às autoridades locais, que consideram o "crime passível de ser punido nos termos da lei como violação sexual, com a agravante de ter acontecido contra um animal (...) Em termos criminais compara-se o acto ao de violação de uma mulher e o facto de ter acontecido com um animal agrava a situação, podendo o autor ser condenado a uma pena de prisão que poderá ir até oito anos" ("Notícias, edição de hoje, 04/11/06, p. 7).
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É tão bizarra a história quanto a acusação. De facto, o incriminado apenas pode ser condenado por atentado ao pudor e jamais...até oito anos, salvo se as leis da Moamba forem especiais, do que tenho dúvida. E tenho sérias reservas sobre se a pobre burra foi violada, no sentido humano equiparado que surge na notícia. E muito maiores são as minhas reservas sobre se "agrava a situação" o facto de o crime ter sido cometido com um animal. Imagino agora o pobre violador de uma jumenta chorando em alguma enxovia tão grave irresponsabilidade! Mas o que pensarão as mulheres da comparação efectuada?
Escapa ao linchamento no Bairro 25 de Junho
As estruturas
As populações foram avisadas de que deveriam estar todas no comício com as estruturas da Nação. As estruturas chegaram. A estrutura máxima dirige-se às populações, boné jetset protegendo a fala e camisete com os dizeres "vamos lá ouvir" de uma provedora de celulares:
-Bom dia, companheiros! Estamos muito satisfeitos por verificarmos que estão a trabalhar com muita vontade, que tendes produzido muito milho, muita mandioca, batata, couves, galinhas. Tudo isso é porque vocês compreenderam o plano quinquenal do Governo. Temos de vencer a pobreza absoluta, daqui a cinco anos ela tem de estar reduzida a 30%. E vamos também lutar contra o HIV/SIDA, a pandemia do século. Companheiros, vamos deixar de estender a mão para a esmola, vamos colocar a mão na enxada e trabalhar ainda mais. Unidos venceremos a pobreza! Obrigado.
O comício acabou, as estruturas dirigem-se para os confortáveis 4/4 e o embaixador da União De Luta Contra a Pobreza diz à estrutura sénior:
-O vosso povo é pacífico e trabalhador.
-Bom dia, companheiros! Estamos muito satisfeitos por verificarmos que estão a trabalhar com muita vontade, que tendes produzido muito milho, muita mandioca, batata, couves, galinhas. Tudo isso é porque vocês compreenderam o plano quinquenal do Governo. Temos de vencer a pobreza absoluta, daqui a cinco anos ela tem de estar reduzida a 30%. E vamos também lutar contra o HIV/SIDA, a pandemia do século. Companheiros, vamos deixar de estender a mão para a esmola, vamos colocar a mão na enxada e trabalhar ainda mais. Unidos venceremos a pobreza! Obrigado.
O comício acabou, as estruturas dirigem-se para os confortáveis 4/4 e o embaixador da União De Luta Contra a Pobreza diz à estrutura sénior:
-O vosso povo é pacífico e trabalhador.
03 novembro 2006
As alforrecas desconhecidas e o opinador João Deixa-Falar-Bem
Temos muitos opinadores no país. E excelentes. O que é um opinador? Um opinador é invariavelmente um sábio que sabe sempre tudo de tudo. Sabem inclusivamente tudo sobre o nada. E são, claro, elegantes: têm a alma da gravata.
Mas vamos à história. O opinador João Deixa-Falar-Bem foi convidado por uma estação televisiva para falar sobre a importância social das alforrecas desconhecidas.
-De quanto tempo disponho, senhor jornalista?
-É uma coisa curta senhor doutor, 5 minutos.
-Está bem, lá estarei.
Chegou o dia.
-Senhor doutor, como devo tratá-lo?
-Bem, sou Doutor.
-Doutor só? Pequeno, grande?
-Professor Doutor, tudo por extenso.
-Mas Prof. Dr.?
-Não: Professor Doutor! Tudo por extenso!
-Muito obrigado, Senhor Professor Doutor!
Chegou a hora de intervenção.
-Senhores telespectadores, o nosso tema hoje tem a ver com a importância social das alforrecas desconhecidas, um tema que começa a mexer com os cidadãos e portanto com o país. E para sabermos algo sobre tão candente tema, temos hoje connosco aqui no estúdio o conhecido especialista, Professor Doutor João Deixa-Falar-Bem. Senhor Professor Doutor, o que acha então da problemática das alforrecas desconhecidas?
-(pigarreio) Boa noite, senhores telespectadores. Muito obrigado pelo honroso convite que me foi feito! Bem, como sabe, as alforrecas desconhecidas são um problema nacional. Por natureza são desconhecidas, isso está provado (pigarreio). É fundamental que ganhemos consciência da sua importância porque inevitavelmente a problemática já é preocupante. Devemos formar parcerias inteligentes para atacar a problemática rapidamente e assim contribuirmos decisivamente para a luta contra a problemática da pobreza absoluta e da pandemia do século, o HIV/SIDA (novo pigarreio)
-Muito obrigado Senhor Professor Doutor. E assim, senhores telespectadores....Etc.
Mas vamos à história. O opinador João Deixa-Falar-Bem foi convidado por uma estação televisiva para falar sobre a importância social das alforrecas desconhecidas.
-De quanto tempo disponho, senhor jornalista?
-É uma coisa curta senhor doutor, 5 minutos.
-Está bem, lá estarei.
Chegou o dia.
-Senhor doutor, como devo tratá-lo?
-Bem, sou Doutor.
-Doutor só? Pequeno, grande?
-Professor Doutor, tudo por extenso.
-Mas Prof. Dr.?
-Não: Professor Doutor! Tudo por extenso!
-Muito obrigado, Senhor Professor Doutor!
Chegou a hora de intervenção.
-Senhores telespectadores, o nosso tema hoje tem a ver com a importância social das alforrecas desconhecidas, um tema que começa a mexer com os cidadãos e portanto com o país. E para sabermos algo sobre tão candente tema, temos hoje connosco aqui no estúdio o conhecido especialista, Professor Doutor João Deixa-Falar-Bem. Senhor Professor Doutor, o que acha então da problemática das alforrecas desconhecidas?
-(pigarreio) Boa noite, senhores telespectadores. Muito obrigado pelo honroso convite que me foi feito! Bem, como sabe, as alforrecas desconhecidas são um problema nacional. Por natureza são desconhecidas, isso está provado (pigarreio). É fundamental que ganhemos consciência da sua importância porque inevitavelmente a problemática já é preocupante. Devemos formar parcerias inteligentes para atacar a problemática rapidamente e assim contribuirmos decisivamente para a luta contra a problemática da pobreza absoluta e da pandemia do século, o HIV/SIDA (novo pigarreio)
-Muito obrigado Senhor Professor Doutor. E assim, senhores telespectadores....Etc.
Na Índia

Veja também os seguinte portais:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/south-asia/4443825.stm
http://www.deccanherald.com/deccanherald/apr42005/national15375200543.asp
02 novembro 2006
Os grandes pensadores corta-mato
Estou completamente consciente de que percorrer as estradas em seu sentido pleno, total, táctil, é uma aventura muitas vezes cansativa. Por isso compreendo todos aqueles grandes pensadores que sabem encontrar vias mais rápidas para chegar às grandes verdades, os pensadores corta-mato, como um tal Ducarla, autor de um livro com o título "O fogo completo" e que, tal como o Sr. Jourdain escrevia prosa sem o saber, descobriu que sabia tudo do fogo sem necessidade de o estudar: "As moléculas ígneas... aquecem porque são; são...porque foram...esta acção só deixa de verificar-se por falta de sujeito."
Quantos Ducarla não há por aqui?
Quantos Ducarla não há por aqui?
Linchamentos e académicos
A página 7 do semanário "meianoite" desta semana (31/10 a 06/11/2006) trás os testemunhos de três académicos sobre os linchamentos: o antropólogo Alípio Siquisse e dois filósofos, Guilherme Basílio e Camilo Jinica.
Creio ser possível resumir os argumentos dos três: trata-se de um problema grave, este problema grave pode gerar a perda de valores morais, as gerações futuras estão assim em risco e, por isso, a justiça deve ser enérgica contra os linchadores, a polícia deve reorganizar-se, dispôr de mais meios, etc., para que a ligação entre Estado e povo seja harmoniosa. O antropólogo Siquisse acha que o povo é movido pela "psicologia de massas" (sic) e o filósofo Jinica propõe que a polícia investigue os "promotores dos linchamentos" (sic).
De ambos extrai-se uma diagonal: o povo é simples e obediente, os promotores dos linchamentos é que o estragam instaurando a psicologia de massas e, por isso, devem ser encontrados.
Nenhum dos meus três colegas parece ter-se inquietado sobre como vivem os moradores na periferia de Maputo.
Creio ser possível resumir os argumentos dos três: trata-se de um problema grave, este problema grave pode gerar a perda de valores morais, as gerações futuras estão assim em risco e, por isso, a justiça deve ser enérgica contra os linchadores, a polícia deve reorganizar-se, dispôr de mais meios, etc., para que a ligação entre Estado e povo seja harmoniosa. O antropólogo Siquisse acha que o povo é movido pela "psicologia de massas" (sic) e o filósofo Jinica propõe que a polícia investigue os "promotores dos linchamentos" (sic).
De ambos extrai-se uma diagonal: o povo é simples e obediente, os promotores dos linchamentos é que o estragam instaurando a psicologia de massas e, por isso, devem ser encontrados.
Nenhum dos meus três colegas parece ter-se inquietado sobre como vivem os moradores na periferia de Maputo.
Pineu! Deita pineu! (9)

10. Conclusões
"(...) a força do fogo é tanto mais forte quanto mais comprimida e apertada estiver" - Jean-Pierre Fabre, 1636, citado em Bachelard, Gaston, A psicanálise do fogo. Lisboa: Estúdios Cor, 1972, p. 8
"No tempo de Samora havia ordem, agora só há bandidos" (moradores dos bairros periféricos de Maputo em entrevista comigo)
Escreveu Bachelard que se o que se modifica lentamente se explica pela vida, o que se modifica depressa explica-se pelo fogo.
Ora, essa bela visão permite, quanto a mim, dar visibilidade paradigmática a todo um processo acumulativo de problemas (a vida dos bairros periféricos de Maputo) , problemas que um dia transbordam porque demasiado comprimidos entre as margens da vida e, subitamente, nas possibilidades abertas de uma bifurcação, dão origem a um clímax brutal, dinamogénico, final (os linchamentos pelo fogo). No contexto das palavras de Fabre, mais acima referido, a força do fogo estava demasiado comprimida.
Com efeito, o quadro social que apresentámos mostra uma saturação social grande, uma angústia grande, uma impotência grande.
Os moradores dos bairros periféricos da grande Maputo sentiram-se e sentem-se como se poluídos pelo mal que os corrói, pela insegurança que os atemoriza, pelo abandono a que o Estado os deixou e deixa.
Lutando em meio a um mar de problemas de sobrevivência, eles chegaram e chegam a um limite a partir do qual não há mais retorno. Não foi nem é a insegurança ou a falta de protecção em si que esteve e está na origem dos linchamentos, mas, antes, a multiplicidade dos problemas sociais de sobrevivência. É esta multiplicidade, essa multipolaridade de problemas sociais que percute, ampliando-a desmesuradamente, a consciência aguda da insegurança que tem na protecção da vida e dos haveres um dos seus eixos basilares.
Eclipsada a razão, libertada a emoção, cidadãos pacíficos tornaram e tornam-se, repentinamente, vozes de uma natureza em fúria. Tornam-se maus não porque sejam maus em si, mas porque - assim sentem - a vida é má e maus os torna.
Decidiram e decidem fazer justiça por suas próprias mãos, decidiram e decidem ignorar os caminhos normais da lei, decidiram que poderiam tentar ter paz da forma mais brutal que pode haver: tirar a vida pelo fogo a um ser humano, culpado ou inocente. E depois, consumado o acto, sentem-se felizes porque julgam ter evacuado o mal.
O vazio institucional que sentiram e sentem é tão grande, que parece terem perdido a confiança total na polícia. "Aqui não é coisa de partidos, aqui todos nós sentimos. Bairros estão cheios de armas, mesmo de polícias" - disseram-me os moradores dos bairros.
A opção pelo exército, a busca aparente de soluções fortes diz bem do estado emocional em que se encontram.
E é justamente nesse contexto que a figura de Samora Machel é constantemente recordada nos bairros. "No tempo de Samora havia ordem, agora só há bandidos" - em uníssono me disseram os dez moradores que entrevistei.
Assim, recuperado na memória ferida, Samora aparece como o justiceiro, o redentor, como aquele que poderia trazer paz e ordem social aos bairros periféricos da grande Maputo.
Os linchamentos são mais do que um exercício brutal de justiça arbitrária: são, também, um aviso ao Estado, não porque os moradores o recusem, mas porque desejam um Estado diferente, um Estado redistribuidor, um Estado que proteja os cidadãos.
Portanto, tomar medidas violentas, enérgicas, para debelar o problema, apenas contribuirá para agravá-lo.
Um fogo nunca se apaga com outro fogo.
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E assim cheguei ao fim desta série dedicada aos linchamentos. Desejo que ela possa contribuir para reflectirmos profundamente sobre um fenómeno que, tudo leva a crer, é mais do que súbito: é cíclico. Como repararam, eu furtei-me completamente ao coro das vozes que no país apenas pedem, na imprensa e em reuniões magnas, o fim da violência sem a estudarem e, portanto, sem a compreenderem. E estou certo de que há gente iluminada que nem precisa de compreender o que quer que seja, salvo a linguagem do bastão e da repressão. Por outro lado, eu não estive nem estou a dar razão aos linchadores. O que fiz e faço é tentar perceber a lógica que organiza o perfil do seu comportamento. E fazendo-o, estou certo de que nem todos me darão razão. O que é compreensível, tal como argumentei ao tentar definir a sociologia logo no início desta série. Vou recordar o que então escrevi a 28 de Outubro, no terceiro número desta série: "O produto final da construção teórica é uma sociedade cujas lógicas de funcionamento nem sempre correspondem às lógicas quer da consciência imediata dos actores sociais em geral, quer da consciência interessada dos produtores oficiais de opinião. Por isso nem sempre a construção sociológica agrada às lógicas de uns e de outros."
01 novembro 2006
Chapa
-Senhor não está ver está deitar casca de mendoim na minha saia?
-Mamã quando está chateado melhor sair cada um é como cada qual.
Travões a fundo, paragem desenfreada, corpos para a frente.
Xiqueleneóóóóó despachar meu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Passageiro entrou.
Chapa.
-Mamã quando está chateado melhor sair cada um é como cada qual.
Travões a fundo, paragem desenfreada, corpos para a frente.
Xiqueleneóóóóó despachar meu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Passageiro entrou.
Chapa.
Aforismos digestivos
Por trás de uma lei, esconde-se um acaso envergonhado; por trás de um teorema, espreita um poema reservado; por trás de um cientista, está um curandeiro de quarentena.
Bom dia, obrigado
-Bom dia, Sr. Samussone
-Bom dia, obrigado
-Como está?
-Estou bem, obrigado, não sei do seu lado.
-Também estou bem, obrigado
Oiçam: quanto mais subimos na escala social aqui, mais aquele generoso obrigado por termos cumprimentado desaparece.
-Bom dia, obrigado
-Como está?
-Estou bem, obrigado, não sei do seu lado.
-Também estou bem, obrigado
Oiçam: quanto mais subimos na escala social aqui, mais aquele generoso obrigado por termos cumprimentado desaparece.
Pineu! Deita pineu! (8)

7. Justificações para o pineu
"O fogo dorme dentro de uma alma mais seguramente do que debaixo das cinzas" (Gaston Bachelard)
Quando interrogados sobre por que razão as pessoas preferiam a justiça sumária, por suas próprias mãos, os meus entrevistados responderam em uníssono que essa era a melhor maneira de fazer justiça e que não valia a pena esperar que a polícia resolvesse os problemas pois nunca os resolve.
Quando indagados sobre se um ser humano não merecia respeito e defesa, responderam que sim, mas que eles também mereciam respeito e defesa e que estavam cansados de esperar esse respeito e essa defesa.
8. Soluções para evitar o pineu
O Estado deve tomar as seguintes duas decisões: (1) reuniões de estudo colectivo de soluções com os moradores; (2) fazer intervir o exército com blindados a proteger os bairros. Quando se chega à epoca das festas de fim-de-ano, a BTR que aparece nos bairros inspira respeito e atemoriza os ladrões.
Essa a posição dos meus entrevistados.
Como se verifica, ela é bem dura. Já não querem polícias, querem soldados. Os entrevistados disseram inclusivamente que o cansaço dos moradores é tão grande que um dia um polícia é linchado. "Sabemos quantas balas tem uma pistola makarov, são oito. Quando as balas acabarem, os moradores começam."
9. Razões por que o pineu não existe na cidade central
Os linchamentos têm ocorrido desde os anos 90 nos bairros periféricos da cidade de Maputo.
Por que razão não ocorrem eles na grande Maputo, na zona central?
De acordo com os meus dez entrevistados, isso deve-se ao facto de a grande Maputo dispor de iluminação e de segurança estatal e privada, tornando difícil a acção de multidões.
Porém, creio que as duas razões indicadas podem ser ampliadas por uma terceira razão. Com efeito, a estrutura urbanística, com os seus prédios, o seu tráfego rodoviário e o seu convite a uma vida mais individualizada e bem mais e melhor gradeada, dificulta naturalmente a formação das multidões temporárias que estão nos linchamentos. O conhecimento colectivo com possibilidades de irradiação imediata é, aqui, claramente inferior ao conhecimento social quase quinestésico que se tem nos bairros periféricos.
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Como sempre, espero que os leitores me ajudem a melhorar o quadro traçado. Tento, através deste rápido diagnóstico, mostrar que um estudo sério é bem melhor do que uma má decisão.
Identidades inesperadas: Associação dos Cornos de Rondónia no Brasil

As identidades são polimorfas. E, por vezes, elas podem surgir e tomar corpo institucional onde menos esperamos. Esta entrada serve para assinalar a existência da Associação de Cornos de Rondónia, no Brasil, a qual agrupa, afirma o seu presidente, 7.000 traídos e traídas conjugais, ao que parece de gente pobre que terá votado em Lula da Silva, agora reeleito. O símbolo da associação é o que aparece na imagem.
Não sou capaz de imaginar que reacções haveria no nosso país caso surgisse por estas bandas uma associação similar. Um bom tema para uma sociologia das possibilidades. E para uma antropologia das alcovas.
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http://www.oobservador.com/new/read.asp?id=9485
http://www.ascron.pop.com.br/
31 outubro 2006
Pineu! Deita pineu (7)

6. O pineu: lógica federadora e catarse
"Tornar o mais fraco dos argumentos o mais forte" (Aristóteles, Retórica, II, 24, 1402A)
Chega a noite. A noite é o medo, o risco do assalto, o perigo da emboscada, a possibilidade do roubo ou da morte, o espectro das possibilidades doentias.
Há nos bairros como que uma doença, uma doença social prolongada, formada por sucessivos problemas encavalitados uns nos outros, com coeficientes diferentes, mas todos confluindo para uma mesma situação de mal-estar profundo. Já não basta viver com dificuldades de sobrevivência: mesmo essas dificuldades são motivo de assalto, de pilhagem.
A espoliação, física e moral, espreita cada cidadão. A doença social indiferencia toda a gente, qualquer pessoa está à mercê da doença, reina um profundo eclipse cultural. A suspeita está em cada ponto, em cada poro. Existe como que a consciência ao mesmo tempo súbita e perene da perda do social, das regras, da moral, o mesmo está em todo o lado e o mesmo é o crime, o medo, a insegurança. Cada morador sente que existe uma poluição social, poluição contra a qual não há defesa pois o vazio institucional é evidente, a polícia não protege, o Estado está nas ruas iluminadas, lá longe, no bem-estar.
Uma noite alguém surpreende uma tentativa de roubo. Ou alguém vê passar outro alguém cujos sinais exteriores lhe parecem suspeitos. Esse alguém está casado com a noite. Se a noite é suspeita, ele também é suspeito. É ninja e pronto.
E surge um grito súbito: Ladrão!!!!!
Imediatamente, como molas rapidamente distendidas por contágio, um bocado de todos os lados, todos berrando, todos exigindo punição, os moradores, sem distinção de sexo e de idade, saem das suas casas de blocos, armados com tudo o que puderam encontrar, catanas, paus, enxadas, não importa o quê. Está rapidamente formada a multidão linchadora e mimética.
O ladrão ou o suposto ladrão é interceptado. Tentar impedir isso representa imediato risco de vida. A multidão age sem freio.
Segue-se o linchamento. Agride-se duramente, todos agridem, todos querem agredir, é fundamental agredir, é como se uma necessidade vital, da natureza estrangeira ao social e à razão, coloca-se um pneu no pescoço da vítima já semi-consciente, chega-se-lhe petróleo, alguém acende um fósforo. O linchado é queimado vivo, por todo o lado se berra.
É a conclusão sacrifical, a catarse, a purificação, a libertação dos males acumulados, da poluição social. Não importa se a vítima é ou não culpada, o que conta é que ela representa o bode expiatório que deve receber toda a mágoa social acumulada, ela é a peça vicária fundamental.
Os moradores julgam, dessa forma, que o social foi restabelecido, que a identidade foi recuperada, que o mesmo deu, de novo, lugar à diferença, a diferença entre a segurança e a insegurança.
Mas a sua mensagem é polissémica: eles advertem os governantes de que também são capazes de violência e de punição, de que também têm leis alternativas, de que são capazes de reorganizar as suas vidas, de que são capazes de encontrar soluções quando as normais não chegam de onde deviam chegar.
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A reconstituição do cenário linchatório foi feita com uma adaptação da grelha teórica de René Girard:
__Des choses cachées depuis la fondation du monde/Entretiens avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978;__ Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982.
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Aguardo que comentem o texto, que sugiram, que critiquem, etc.
Por que me interesso pelos actos humanos?
"Curavi humanas actiones, non ridere non lugere, neque detestari, sed intelligere" - "Interessam-me os actos humanos, não para rir-me deles, nem para deplorá-los, nem sequer para os detestar, mas simplesmente para os compreender".
- Baruchi Spinoza
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Uma bela coisa, sem dúvida, um extraordinário manifesto de neutralidade axiológica. Mas digam-me lá, companheiros desta cruzada cognitiva: podemos realmente meter em quarentena as nossas crenças normativas, somos nós efectivamente capazes de ser spinozistas, de não rir, de não deplorar, de não detestar os actos humanos, para unicamente os compreender enquanto cientistas sociais? Creio que não. Vejam a paixão que Zico em nós despertou.
- Baruchi Spinoza
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Uma bela coisa, sem dúvida, um extraordinário manifesto de neutralidade axiológica. Mas digam-me lá, companheiros desta cruzada cognitiva: podemos realmente meter em quarentena as nossas crenças normativas, somos nós efectivamente capazes de ser spinozistas, de não rir, de não deplorar, de não detestar os actos humanos, para unicamente os compreender enquanto cientistas sociais? Creio que não. Vejam a paixão que Zico em nós despertou.
Houve fraude nas eleições presidenciais de 2004 segundo AWEPA
Citando um boletim da AWEPA (Associação dos Parlamentares Europeus para África), o "Canal de Moçambique" (CM) afirma que a União Europeia reconhece ter havido fraude nas eleições presidenciais de 2004, com problemas em mais de duas mil assembleias de voto (16%) das 12.807 existentes. Segundo o CN, o boletim da AEWPA afirma que "Armando Guebuza teve 70 mil votos frutos da introdução de votos fictícios nas urnas e Afonso Dhlakama teve igualmente 70 mil votos a menos porque os seus apoiantes foram impedidos de votar”. Em 1999 a diferença oficial entre Chissano e Dhlakama foi apenas de 200 mil votos.
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http://www.canalmoz.com/default.jsp?file=ver_artigo&nivel=1&id=6&idRec=1115
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