O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2018 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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31 julho 2014

Blogue/Justiça

Há um blogue ainda a nascer tendo como tema a justiça em Moçambique, aqui.

Acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro

O geral das análises feitas sobre a política no país tem um cunho vincadamente ingénuo, edulcorado, normativo. Por exemplo, acredita-se que o diálogo é, só por si, um abre-latas instantâneo e eficaz. Neste momento diz-se que há sinais de consenso em questões fundamentais para um acordo político entre governo e Renamo. Mas o que significam acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro, quer dizer, antes das eleições gerais marcadas para esse mês?

O que é sociologia?

Está em preparação mais um tema-pergunta da coleção "Cadernos de ciências sociais", com o título "O que é sociologia?", da autoria de Vicente Paulino de Timor-Leste, Paulo de Carvalho de Angola, Daniel dos Santos do Canadá e Ricardo Arruda do Brasil. Entretanto, na segunda-feira é entregue à editora o nono número, com autoria do médico legista moçambicano Eugénio Zacarias, do médico e psiquiatra brasileiro Jorge Márcio de Andrade, do sociólogo angolano-luso-canadiano Daniel dos Santos e do sociólogo brasileiro Ricardo Arruda. (visite as livrarias da "Escolar Editora"). Abaixo, as capas dos números já no mercado (amplie-as clicando sobre elas com o lado esquerdo do rato):
No prelo

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo) (13)

Décimo terceiro número da série. Permaneço no ponto sexto do sumário proposto aqui6. Cinco padrões de construção identitária. Passo ao terceiro padrão de construção identitária: página de propaganda política. Neste caso, o utente ou a utente (regra geral é um homem) procura mostrar, das mais variadas maneiras, a excelência de um determinado político ou de um determinado partido político. Recursos: citações, fotografias, bandeiras, recortes de jornais, etc. Este padrão de página identitária tornar-se-á mais frequente à medida que nos aproximarmos das eleições gerais marcadas para Outubro em Moçambique. Tal como na página de propaganda religiosa, a utente ou o utente é menos ela-própria ou ele-próprio, do que um veículo de uma determinada mensagem política. A identidade age como que por mandato.

A real transformação social

Não são poucos aqueles que gravitam cegamente em torno do que os líderes de partidos dizem. Não são poucos aqueles que confundem indivíduos com sistemas. Não são poucos aqueles que julgam que programas políticos são realidades. Não são poucos aqueles para quem o Estado é uma coisa meramente técnica. Falta surgirem aqueles que irão para além das palavras dos líderes partidários, para além dos indivíduos, para além dos programas, para além da visão técnica da governação. Falta surgirem aqueles que, efectivamente, terão a seu cargo a real transformação social.

Amílcar Cabral e a cultura em África

"Há muita gente que pensa que para a África resistir culturalmente, tem que fazer sempre aquelas mesmas coisas que já fazia há 500 ou há 1000 anos. Sim a África tem a sua cultura, de facto, essa é a nossa opinião concreta. Alguns aspectos dessa cultura são eternos, nunca acabam, podem transformar-se sempre pelo caminho, mas nunca hão-de acabar. Por exemplo, os nossos ritmos de dança, o nosso ritmo próprio de África. Mas ninguém pense que o tambor é só da África, que ninguém pense que certas maneiras de vestir são só da África, as saias de palha, as folhas de palmeira, etc., que ninguém pense que comer com a mão é só da África. Todos os povos no mundo, no Brasil, por exemplo, que estão piores do que nós nisso, como na Indonésia, na Polinésia, no Extremo asiático. [Muita gente para defender a cultura da África pensa [que], para resistir culturalmente em África, temos que defender as coisas negativas da nossa cultura. Não, a nossa opinião é que a cultura também é o produto do nível económico em que um povo está. A nossa opinião é que, comer com a mão, e até cantar certos tipos de cantigas, até maneiras de dançar, dependem da vida que o povo leva, do ponto de vista de produzir, produzir riquezas, produzir coisas para ele. (...) O nosso ponto de vista, portanto, é que, na nossa cultura devemos fazer resistência para conservar aquilo que de facto é útil e construtivo, mas na certeza de que, à medida que avançamos, a nossa roupa, a nossa maneira de cantar, tudo tem de mudar aos poucos, quanto mais a nossa cabeça, o nosso sentido nas relações com a natureza, e até as nossas relações uns com os outros. (...) Ninguém pense que porque essas coisas [crenças na magia, C.S.] existem em nós, porque somos africanos, somos mais do que os outros, porque conhecemos 'mézinhos' que outros não conhecem. (....) Isso é o reflexo de um estado de desenvolvimento económico, mais nada." - Cabral, AmílcarAnálise de alguns tipos de resistência. Lisboa: Seara Nova, 1975, pp.74-75, 76, 79.

30 julho 2014

Acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro

O geral das análises feitas sobre a política no país tem um cunho vincadamente ingénuo, edulcorado, normativo. Por exemplo, acredita-se que o diálogo é, só por si, um abre-latas instantâneo e eficaz. Neste momento diz-se que há sinais de consenso em questões fundamentais para um acordo político entre governo e Renamo. Mas o que significam acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro, quer dizer, antes das eleições gerais marcadas para esse mês?
Adenda às 19:43: segundo a "Rádio Moçambique" no seu noticiário das 19:30, hoje nenhum acordo foi alcançado nas negociações Governo/Renamo que ocorrem no Centro de Conferências Joaquim Chissano, cidade de Maputo. O porta-voz do Governo, ministro José Pacheco, afirmou que a Renamo trouxe dados adicionais que importa analisar; o porta-voz da Renamo, Saimone Macuiana, disse que isso não é verdade.

Tropismos políticos

Há tempos foi António Frangoulis que, zangado com a Frelimo, emigrou para o MDM. Aqui. Agora é Marcos Juma, presidente do Panamo, que, zangado com o MDM, diz ir apoiar o candidato presidencial da Frelimo. Aqui (repare-se no enorme espaço dado pelo "Notícias" à zanga de Juma).

Multidão e discurso político

A multidão é o desejo veemente do líder, grande ou pequeno, falando na capital cosmopolita ou na modesta sede do posto administrativo. Nos comícios, o líder tem a seu pleno cargo lúdico a gestão cerimonial - panorâmica e vertical - dos súbditos presentes, ele num estrado ou num palanque rodeado de assistentes e convidados com ar respeitoso, súbditos em baixo, de pé regra geral, expectantes, surpresos, fascinados com o espectáculo. Gestão cerimonial meticulosamente  preparada por uma corte de funcionários. Quanto mais gente estiver presente mais o líder se convence de que tem a seus pés a nação inteira em formato concentrado. A gestão cerimonial está intimamente associada a um certo tipo de relato jornalístico que acentua a presença de multidões felizes e faz passar a ideia forte de que o líder é amado por muitas pessoas. Capacidade de juntar muitas pessoas é vista como produto de legitimidade política. (imagem reproduzida daqui)

Boito e o novo marxismo

Sobre a teoria política marxista, Armando Boito entrevistado em 2007, aqui.

29 julho 2014

E lá se foram os amores da Praia dos Amores

Segundo o "Diário da Zambézia" digital na sua edição de hoje, o governador da Zambézia, Joaquim Veríssimo, "mandou colocar sinais de proibição de estacionamente no muro da marginal em frente da sua residência para impedir que os cidadãos desta cidade de Quelimane se aproximem daquele local que sempre foi de lazer e conhecido como Praia dos Amores". Adianta o jornal que o delegado do Instituto Nacional de Transportes Rodoviários,  Afonso Próspero, disse que já se encontrara com o chefe da Polícia de Trânsito e com o chefe das Forças de Proteção para Altas Individualidades,  alertando-os para a ilegalidade da proibição. (foto do jornal, CS)

Sibindy, o criador

O candidato presidencial Yá-qub Sibindy, rico de indumentárias e de cajados e forte de palavras balsâmicas em seu "triângulo do desenvolvimento", criou uma nova expressão: paludismo político. Aqui.

Negócios em Moçambique

"O crescimento nos sectores de energia e mineração em Moçambique não só atraiu muitos consultores e especialistas de equipamentos e logística, como também pequenas empresas de transporte aéreo." Cabeçalho da notícia aqui.

28 julho 2014

Prismas

Respectivamente aqui e aqui.
Adenda 1 às 17:15: segundo o "O País" digital, aqui.
Adenda 2 às 19:24: segundo o "@Verdade" no Facebook, aqui.
Adenda 3 às 20:07: segundo o "Mozambique 267" editado por Joseph Hanlon, com data de hoje: "Foi alcançado consenso hoje na maioria dos pontos militares na ronda 66 de negociações entre a Renamo e o governo, e um acordo completo é possível na quarta-feira, anunciaram hoje os negociadores. Acordo foi agora alcançado em cinco pontos: 1) fim das hostilidades; 2) integração dos homens da Renamo no exército governamental; 3) "reinserção económica" de outras pessoas da Renamo; 4) desarmamento da Renamo; 5) amnistia total." (tradução minha, CS)
Adenda 4 às 05:24 de 29/07/2014: segundo a "Lusa" aqui.
Adenda 5 às 08:06: segundo o "Canal de Moçambique", aqui.

Sobre o discurso dominante

O discurso politicamente dominante sobre o mundo social não tem apenas a função de legitimar a dominação, mas, também, a de orientar a acção destinada a perpetuá-la e a disfarçá-la.

CIP

Um trabalho do Centro de Integridade Pública, escrito por Borges Nhamire e Lázaro Mabunda, a conferir aqui.

No "Savana" 1072 de 25/07/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei. Uma gralha: o número da crónica é 385 e não 384.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo) (12)

Décimo segundo número da série. Permaneço no ponto sexto do sumário proposto aqui6. Cinco padrões de construção identitária. Passo ao segundo padrão de construção identitária: página de propaganda religiosa. Aqui, o utente ou a utente faz uso ostensivo e, por vezes, absoluto, de versículos, de citações, de sentenças, de declarações de fé, de veneração a um deus e a uma religião, de menções à bondade. Este tipo de página pode combinar-se com conversas de amigos, com referências à música, por vezes à culinária. Porém, muitas vezes a utente ou o utente deste padrão de construção identitária considera-se, directa ou indirectamente, como um produto, como um derivado da religião professada. Por isso, a utente ou o utense não se erige como eixo, como centro da página, mas como o veículo de uma missão salvacionista.

27 julho 2014

É amanhã o dia dos 5%?

Aqui e aqui. Entretanto, amanhã, no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, cidade de Maputo, deve acontecer nova ronda negocial entre governo e Renamo.
Adenda 1: recorde neste diário um texto meu intitulado "A propósito dos 95%", aqui.
Adenda 2: recorde também neste diário a postagem intitulada "Prismas", aqui.

Lá no Niassa

Amplie as imagens clicando sobre elas com o lado esquerdo do rato.
Adenda às 08:44: confira este trabalho sobre prevenção de incêndio nos painéis solares, aqui (agradeço ao RC o envio da referência).

Poder político e representação

Comemorações, inaugurações, condecorações, desfiles: eis momentos efusivos de grande importância para expôr e exaltar o poder político, as datas históricas, para assinalar visitas especiais dos chefes, para premiar os cumpridores, para reforçar a memória dos heróis fundadores, polir o poder da história vencedora, a saga da gestão estatal, as vitórias do plano estratégico, para desfraldar as virtudes da estatística no cumprimento heróico das metas. Grande cuidado ritual é dedicado a estes momentos que se pretendem de rejuvenescimento, de racauchutagem da confiança política, de restauro do espectáculo do poder exposto na sua força imponente, persuasiva, sinestésica, produtora de efeitos ópticos fantásticos. Cerimónias propiciatórias oficiadas pelos curandeiros em memória dos espíritos, coros de pendor religioso e espectáculos musicais são alguns dos ingredientes usados na produção simbólica e massiva de poder político em dias de festa. Do topo à base da cadeia do poder, do grandioso ao modesto, da capital ao território sem altifalantes do chefe de posto, ritmadas pelas bandeiras do Estado e do partido, as comemorações sucedem-se, em cerimonialismo cuidadoso: nenhum chefe as perde ou as esquece, sagradas que são. (imagem reproduzida daqui)

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1072, de 25/07/2014, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

26 julho 2014

Espinha

Não poucas vezes são os mais críticos os primeiros a curvarem a espinha ante poder e fausto.

O que disse Ana Paula segundo a UNAC

No portal da União Nacional dos Camponeses (UNAC), a propósito do corredor de Nacala e do ProSavana: "Nós mulheres, estamos a sofrer com a usurpação de terra, como mulheres nem podemos passar pelas terras onde o projecto está situado para buscar lenha, nem para tirar as raízes da terra que servem de medicamentos para as nossas famílias. Por isso, nós as mulheres estamos a passar muito mal com estas empresas que estão a usar a terra em Nampula e nas áreas ao arredor” revelou a camponesa e líder da UNAC, Ana Paula." Aqui.

25 julho 2014

Prismas

Sem identificar as fontes, o "Notícias" digital de hoje reportou que o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, podia estar gravemente doente. Aqui. No "Sapo Notícias" digital de hoje também, Ivone Soares da Renamo é citada a dizer que Dhlakama goza de óptima saúde. Aqui.
Observação: parece ser razoável inserir esta luta de prismas no actual momento moçambicano - espécie de luta de trincheiras em crescendo -, oscilando como um pêndulo entre as negociações no Centro de Conferências Joaquim Chissano e as eleições gerais marcadas para Outubro.
Adenda às 05:40: na sua edição digital de hoje, o "Notícias" digital mudou de tom, deixou a suposta doença de Dhlakama na penumbra, confira aqui.
Adenda 2 às 05:43: enquanto isso, o portal da Renamo está inoperacional há vários dias, aqui.

Proximamente

Um livro

Prossegue a luta pelo monopólio político de régulos e secretários de bairros

Recorde o mesmo tema neste diário, em postagem de 21 de Junho, aqui. Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.
AdendaQuando falamos em poder temos, regra geral, a concepção de um poder amplamente visível, permanente, de um poder enorme, regra geral concentrado numa pessoa. O chefe geral, o presidente, o big boss: eis o que sensorialmente nos atrai e nos motiva, eis o percurso do nosso hábito persistente, a vertigem imediata da nossa ingenuidade e da nossa imensa reverência aos grandes homens - deuses profanos por nós construídos - e seus símbolos. Porém, o poder do grande, do boss, é em grande medida veiculado e adaptado pelos vasos capilares anónimos de um sistema, de todo um sistema, vasos que, por exemplo, no nosso caso, passam por régulos, chefes de quarteirão, líderes religiosos, intelectuais guarda-portas, jornalistas yes-yes, intérpretes, etc. Neste diário aqui.
Adenda 2 às 08:46: confira aqui.

Phishing

O meu sistema de segurança assinala e bloqueia phishing sempre que abro o "Notícias" digital, designadamente a sua secção política, seja qual for o motor de busca (Google Chrome, Firefox e Internet Explorer).
Pedido: pode algum leitor fazer o teste e dizer-me algo?

Genocídio na Faixa de Gaza

Adenda às 7:23: confira aqui.

Sexualidade de periferia

Por hipótese, a história da humanidade é, também, a história de repressão formal da sexualidade, a história tenaz do seu encaminhamento para áreas de sexualidade controlada, digamos que áreas de sexualidade de periferia, áreas de sexualidade sazonal (dança, boîtes, prostíbulos). E essa repressão é fundamentalmente um fenómeno urbano, burguês. O fundamental é dotar a sexualidade de uma existência de penumbra e, especialmente, poupá-la aos jovens em público. O secretismo do amantismo (tão bem descrito nos romances de Stendhal) é uma forma criticada, mas permitida em seu desvio para áreas "nocturnas", secretas.

Lixeiras

É nas lixeiras das cidades, como na do bairro de Hulene em Maputo, que todo um complexo processo de luta pela vida está organizado em torno de um mundo heteróclito de regras, de hierarquias e de gestão dos múltiplos objectos jogados fora pelas categorias sociais de bem-estar, com desempregados (entre os quais desmobilizados de guerra) tentando sobreviver, empregados ensaiando melhorar as suas condições de vida e crianças reinventando lazer e brincadeira.

A questão social

Primeiro frase de um texto do falecido sociólogo brasileiro Octavio Ianni: "Nas épocas de crise a questão social se torna mais evidente, como desafio e urgência". Aqui.

24 julho 2014

27 entradas sobre Moçambique

A propósito dos 95%

Com o título "Governo e Renamo preparam acordo final para segunda-feira", no "O País" digital: "Depois de 65 rondas caracterizadas por avanços e recuos, divergências e intransigências, o Governo e a Renamo dizem ter chegado a consensos em 95% das questões em diálogo. [...] A suspensão dos ataques na zona Centro e o certificado de registo criminal de Afonso Dhlakama são indicadores de que as partes já tinham chegado a entendimento sobre os princi­pais pontos de discussão." Aqui.
Comentário: sem dúvida que é interessante, que é singular esta tentativa de rigor percentual. Não são 93 ou 91, mas 95%, exactamente 95%. Mas talvez esse não seja o ponto mais interessante. O ponto mais interessante talvez seja o de se estar eventualmente muito próximo de um acordo político pré-eleitoral, quer dizer, um acordo a nascer não da força dos votos, mas da força das armas, um acordo oriundo do ajuste castrense no terreno, um acordo cujo cerne é a redistribuição de recursos de poder e prestígio especialmente ao nível das forças de defesa e segurança. Mais: um acordo que parece dispensar os resultados das eleições presidenciais e legislativas marcadas para Outubro, ganhe quem ganhar. Mais profundamente ainda: podemos tornar-nos um país politicamente bipartidário que executa estatalmente eleições multipartidárias, ali praticando o real, aqui teatralizando o formal. As AKM talvez sejam, afinal, mais decisivas do que os votos, mesmo calando-se: uma perspectiva sombria, sem dúvida, mas que guarda o cordão umbilical da história, em seus actos físicos e simbólicos. E, mais decisivo ainda, não consta que haja senões nos registos criminais dos actores fundamentais da história política contemporânea do país.

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo) (11)

Décimo primeiro número da série. Permaneço no ponto sexto do sumário proposto aqui6. Cinco padrões de construção identitária. Passo ao primeiro padrão de construção identitária: página confessional. A hipótese é a de que esta é a página mais comum no Facebook, a mais popular, a mais praticada. Através dela, as pessoas dizem claramente que existem, que têm uma personalidade, uma voz, mais raramente uma foto real (o anonimato é frequente), uma maneira de pensar, um determinado corpo, um conjunto de gostos de vários tipos. Viagens, fotos, feitos, receitas culinárias, ditos, chistes, anedotas, extractos de vida, confissões, citações, símbolos de riso ou de crítica: há todo um mundo variado de acções e de reacções. As pessoas saiem do círculo físico dos laços familares e grupo de amigos para entrar no círculo sem fim dos amigos digitais. Mas não só: o Facebook permite quer o reencontro de velhas amigas e de velhos amigos, quer a passagem dos amigos digitais aos amigos físicos, quer, ainda, a reaproximação de parentes distantes. A página confessional provavelmente serve para  combater a solidão e o isolamento em particular nas pessoas acima dos 60 anos, dando um sentido permanente à vida. E, no geral, parece fornecer a sensação, quase gustativa, de popularidade instantânea. O Facebook é, afinal, o ópio do povo.

Um relatório

Relatório com data de 14 de Julho deste ano aqui, referência jornalística em inglês aqui, referência jornalística em português aqui. Amplie as imagens clicando sobre elas com o lado esquerdo do rato.
Adenda às 05:42: confira também este relatório aqui.
Adenda 2 às 05:44: este diário psosui centenas de postagens alusivas ao saque da nossa madeira. A mais recente data de 14 de Junho do corrente ano, aqui.

23 julho 2014

11 candidatos a Presidente da República

Onze pessoas candidatam-se a Presidente da República, confira no portal do Conselho Constitucional aqui.

Em prejuízo da lógica da floresta

Há muitas maneiras, conscientes ou inconscientes, de aceitar e justificar uma determinada ordem social. Uma delas consiste, ao nível da imprensa, no privilégio concedido ao singular, ao fantástico, ao depravado e ao ligeiro. Por outras palavras: tratar a árvore de forma incomum, em prejuízo da lógica da floresta.

Alcinda e Albie

A moçambicana Alcinda Honwana e o sul-africano Albie Sachs serão os dois conferencistas especiais da III Conferência Internacional do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane. Saiba um pouco sobre eles aqui, aqui e aqui.

22 julho 2014

Baidu em português

A China tem o seu motor de busca Baidu agora em português, aqui. Vantagens de segurança assinaladas aqui.

Luta pelo monopólio político de régulos e secretários de bairros

A luta ocorre no município de Nampula e está exemplarmente descrita neste texto aqui.
Adenda: recorde neste diário um texto meu intitulado Vasos capilares do poder político, aqui.
Adenda 2 às 11:30: nem o "Wamphula Fax" nem o "Nova Era Electrónico" de hoje, editados em Nampula, se referem ao fenómeno.

Mais próximos e mais distantes

A cidade de Maputo tem cada vez mais condomínios, cada vez mais enclaves fortificados. Seja a partir da Embaixada da China na Avenida Julius Nyerere, descendo até ao Mercado do Peixe e percorrendo a Marginal, o Bairro do Triunfo, quase até ao restaurante Costa do Sol,  seja nas barreiras desde a Presidência da República até próximo do Clube Naval - engolindo a zona verde -, apercebemo-nos de quanto o rosto da cidade mudou, de quanto ela se povoou de condomínios, de enclaves fortificados. Já não é mais uma questão de construir uma moradia de luxo, mas de a ter num enclave protegido. E, também, já não é apenas uma mera questão da divisão espacial centro-periferia. Não se trata de criar barreiras pela distância, mas por sistemas de segurança especiais. Os enclaves fortificados são, a esse respeito, um exemplo cada vez mais generalizado, com os muros altos, cercas electrificadas, portões especiais de acesso, segurança electrónica, interfonia, guarda privada, etc. Os grupos sociais estão ao mesmo tempo mais próximos e mais distantes.

Gaza e gás

Na faixa de Gaza, sob impiedoso ataque e colonização de Israel, abunda o gás, recorde neste diário uma postagem de 2009, aqui.

21 julho 2014

No "Savana" 1071 de 18/07/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei. 
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Para o bem ou para o mal

Quanto mais frágeis e escassas as forças produtivas de uma sociedade, mais aderentes as pessoas à ideia de que o comportamento e o destino sociais são produto de forças naturais ou de seres extra-humanos. Em cada para-raios ausente habita um espírito ou um deus, para o bem ou para o mal.

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo) (10)

Décimo número da série. Ponto sexto do sumário proposto aqui6. Cinco padrões de construção identitária. Como tenho advertido, existem muitas zonas de penumbra no tema aqui tratado. Apesar disso, proponho cinco padrões de construção identitária, a saber: página confessional, página de propaganda religiosa, página de propaganda política, página jornalística e página científica. Qualquer destes padrões pode, porém, combinar-se com outros padrões, dando origem a produtos mistos.

Marx e Ucrânia: contra a “Realpolitik” infantil

"O que diria hoje Marx sobre a Ucrânia e a anexação da Crimeia pela Rússia?" - uma pergunta de Nicolás González Varela num texto de Abril deste ano com o título em epígrafe, aqui.