O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2017 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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30 junho 2014

Paz às suas almas

Faleceram Florence Ali (foto à esquerda), por doença, presidente da Associação pelo Bem-Estar da Mulher do Gana e, por assassinato, Salwa Bugaighis (à direita), activista líbia dos direitos humanos. Florence foi uma lutadora contra a mutilação genital feminina e Salwa tinha acabado de votar nas eleições parlamentares líbias. Paz às suas almas. O meu obrigado à "Égalité Maintenant" pelo envio da infausta notícia.

No "Savana" 1068 de 27/06/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do semanário "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei. 
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo) (1)

O que se segue é apenas um pequeno conjunto de hipóteses, quer dizer, um conjunto de pressuposições que carecem de verificação. Qual é o seu campo de acção? O Facebook, onde há mais de mil milhões de utentes em todo o mundo. Eis um pequeno sumário orientador: 1. Luta contra o anonimato; 2. Imediatismo das redes sociais digitais; 3. Magia dos "amigos" e dos "likes"; 4. Perfis dos frequentadores; 5. Idades dos frequentadores; 6. Cinco padrões de construção identitária; 7. Conclusões

Lá no Niassa

Amplie a imagem em epígrafe clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato. Em língua yaawokucela significa amanhecer. Sobre a província do Niassa, aqui.

29 junho 2014

Templos relvados do Brasil 2014

As nossas tristezas, as nossas fragilidades, os nossos medos, ficam reactivamente atenuados se as nossas equipas ganham. Se não ganham, sabemos que ganharão um dia. Uma fé inabalável, que a magia, boa ou má, dos treinadores (os grandes curandeiros do ritual), alimenta em permanência. Nenhum livro explica melhor o futebol do que "As formas elementares da vida religiosa", de Émile Durkheim. Somos, afinal, os antigos australianos de Durkheim, sobreexcitados e/ou apaziguados, agora renascidos e presentes nos templos relvados do Brasil 2014. (foto reproduzida daqui)

Construção identitária no Facebook (facebooko, logo existo)

Uma coleção mundial à venda em Maputo

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.
Adenda:

Segundo o "@Verdade" digital

Aqui (amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato).
Observação às 05:50: já há quem use a imagem em epígrafe (adaptada do jornal mencionado em epígrafe) em certos portais como se não a tivesse tirado daqui (por isso introduzi, há momentos, a marca de água). Não é a primeira vez que imagens aqui divulgadas têm esse destino. E também não é nem será a primeira vez que ideias aqui desenvolvidas são descaradamente plagiadas. Um pequeno programa permite-me detectar isso nos portais e nas postagens do plágio e do copia/cola/mexerica. Já agora, sugiro a leitura desta texto meu intitulado Mediocridade da blogosfera/síndrome do Ctrl-c/Ctrl-v, aqui.
Adenda às 09:57: confira o "Diário da Zambézia" digital, aqui.

Sobre a riqueza

Consolida-se em certos círculos políticos a ideia de que os Moçambicanos não devem ter vergonha de ser ricos. Acresce que certas igrejas milagreiras até descobriram que Deus, afinal, quer que os humanos sejam ricos (recorde a receita do bispo Renato Cardoso, aqui). É tudo uma questão de força de vontade, de espírito empreendedor. A preguiça é a causa da pobreza. Se as pessoas não forem preguiçosas, podem tornar-se ricas. Pobreza e riqueza são supostas serem questões que relevam da vontade individual e não de relações sociais concretas. Como escreveu um dia Samir Amin, esse tipo de discurso jamais levanta a questão das lógicas e dos mecanismos que geram a pobreza. E, também, a sua politicidade.
Adenda: sugiro recorde um texto meu intitulado Onde moram os pobres?, aqui. E também estoutro texto aqui.

O ritual da água mineral

As garrafas de água mineral povoam em permanência as conferências e os seminários do país, não importa se faz frio ou calor, se há ou não sede. Decididamente a água mineral tornou-se necessária sem o ser, passou a guardar em si o selo da necessidade desnecessária. A função primordial da água de "matar a sede" foi convertida à função "dar sentido cerimonial aos encontros". Um mito, um deus líquido.

28 junho 2014

A nova partilha de África (a história repete-se duas vezes)

"No século XIX, as potências coloniais européias construíram infra-estruturas para extrair recursos africanos para os lucros europeus. Hoje, grandes empresas e governos ricos estão investindo em infra-estruturas para facilitar a exportação de recursos africanos." Aqui.
Observação: num dos seus livros, Karl Marx escreveu o seguinte: "Hegel fez algures a observação de que os grandes acontecimentos e as personagens históricas repetem-se por assim dizer duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa." (Le 18 de Brumaire de Louis Bonaparte. Paris: Éditions Sociales, 1969, p.15).

Quando um partido político esclerosa

Um partido político esclerosa quando os seus membros se tornam caixa de ressonância do grande líder divinizado, quando se tornam simples apêndices miméticos de decisões, expressões e gestos vindos do "alto", quando deixam de pensar para serem pensados.

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1068, de 27/06/2014, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

27 junho 2014

800

A língua portuguesa faz hoje 800 anos.

Construção identitária no "Facebook"

Amanhã neste diário

Fragilização das redes tradicionais de proteção

Nas cidades, muitos idosos e deficientes estão a braços com a fragilização das redes tradicionais de protecção. As "romarias" de mendigos das sextas-feiras são, a esse respeito, eloquentes.

Racismo institucional

O racismo institucional é uma variedade do racismo biológico, tomando a raça como critério para definir o acesso dos cidadãos a cargos do Estado e, mesmo, do Capital (conselhos de administração de empresas). O apartheid, a affirmative action, a indigenização e o sistema de quotas raciais são alguns exemplos. Aqui.

26 junho 2014

O que o grupo hegemónico da Renamo quer dizer

"O ambiente de coabitação política entre a Frelimo e a Renamo é politicamente insustentável neste momento. É dentro deste quadro que, por imperativo de paz, achamos que é melhor que a Frelimo viva no seu espaço e a Renamo em outro, ficando a Frelimo no sul do país, a partir do rio Save, e a Renamo no centro e no norte do país”, disse Maria Inês, membro do Conselho Nacional da Renamo, no momento da leitura da resolução relativa à actual situação política." Aqui.
Comentário: o que o grupo hegemónico da Renamo quer verdadeiramente dizer é que (1) se falhar um acordo bipartidário (com a Frelimo) visando a redistribuição elitária de recursos de poder e prestígio nas forças de defesa e segurança antes das eleições marcadas para Outubro e (2) se, também, as eleições não permitirem ganhos imediatos na governação, então o regionalismo guerrilheiro à Save - na possível perspectiva institucional de um Estado federal ou no quadro de um Estado seccionista - será accionado para permitir o acesso às governações efectivas e aos benefícios fiscais da exploração de recursos minerais.

Índice dos Bons Países

O nosso país foi classificado em 71.º lugar entre 125 países no Índice dos Bons Países, que analisa o impacto internacional segundo sete parâmetros: cultura, paz e segurança internacional, ordem mundial, planeta e clima, prosperidade e igualdade e saúde. Aqui. (agradeço ao RC o envio da referência)

25 junho 2014

25 de Junho de 1975: dia da independência nacional

Foi Eduardo Mondlane quem, melhor do que ninguém, enunciou no país os termos da troca política, da justiça social e, afinal, da democracia real: os cidadãos só participam num projecto político se o Estado for um parceiro redistribuidor. É por essa via que se adquire legitimidade, é por aí que verdadeiramente toma corpo o capital directivo. Na verdade, a Frelimo enfrentou nos anos 64/66, os dois primeiros da luta armada, o seguinte problema, narrado por Mondlane:
O vazio deixado pela destruição da situação colonial pôs um problema prático que nunca tinha sido considerado pelos chefes: o desaparecimento duma série de serviços inerentes à dominação portuguesa, especialmente serviços comerciais, enquanto o povo continuava a existir e a necessitar deles. A incapacidade da administração colonial deixava também muitas necessidades insatisfeitas, que continuavam a ser fortemente sentidas pelas populações. Assim, desde as primeiras vitórias de guerra, recaíam sobre a FRELIMO muitas e variadas responsabilidades administrativas. Uma população de 800 000 habitantes tinha de ser servida. Primeiro e acima de tudo, havia que satisfazer as suas necessidades materiais, assegurar abastecimentos alimentares, e outros artigos, como vestuário, sabão e fósforos; serviços de saúde e educação, sistemas administrativos e judiciais. [Durante algum tempo, o problema foi agudo. Não estávamos preparados para o trabalho que tínhamos pela frente, e faltava-nos experiência na maioria dos campos em que necessitávamos dela. Nalgumas áreas, as carências eram muito sérias; e onde os camponeses não compreendiam as razões, retiravam o seu apoio à luta e, nalguns casos, partiam mesmo definitivamente.” [Mondlane, Eduardo, Lutar por Moçambique. Lisboa: Sá da Costa, 1977, 3a ed., p.185]

Racismo biológico

Racismo biológico é um conjunto de representações sociais que atribui valor positivo ou negativo a caractertísticas físicas normalmente consideradas hereditárias. Este tipo de racismo - digamos que é o racismo por excelência, o racismo fundador - tem sido usado na história para justificar a opressão social e, no seu clímax, o genocídio, estando intimamente associado à luta pelo monopólio de recursos de vida e poder. O apartheid sul-africano é um odioso exemplo histórico, o xenofobismo é o seu exercício mais extremo. A internet está cheia de movimentos racistas do tipo biológico. Aqui.

24 junho 2014

Racismo religioso

Em que consiste este tipo de racismo, que atribui a Deus a preferência por este ou aquele credo e sua respectiva verdade e se constitui com as vestes do militantismo castrense? O racismo religioso assenta em três pressupostos: (1) Verdade exclusiva que se atribui a uma espécie de deus privatizado e a normas supostamente criadas por ele ou por um seu profeta em terra; (2) Vocação guerreira e eliminatória para defesa da verdade e das normas; (3) Aplicação de uma justiça terrena que se acredita ser a mais pura e legítima. Três pressupostos fundamentalistas que fazem parte de algumas religiões e criam barreiras intransponíveis ao diálogo interreligioso e à solidariedade humana. Aqui.

"Retrato de Angola a partir da visão de uma brasileira"

Extractos de um trabalho da psicóloga Tânia Jandira Rodrigues Ferreira com o título em epígrafe: "Durante nossa estadia em Angola um fato nos chamava atenção. A maioria das pessoas o tempo todo fala "sim" e "yá" (corruptela do sim), para qualquer coisa que se diga. Poucas pessoas tem o hábito de refutar ou debater alguma afirmação, para melhor compreensão sobre algum fato da realidade. [...] A cultura da obediência é reforçada pelo autoritarismo existente. Há ainda uma forte cultura militar. Militares são vistos andando fardados como um símbolo de seu poder. Há além disso, em toda parte, "pequenos poderes" exercidos por funcionários públicos que são acionados, tentando controlar a vida dos cidadãos angolanos, ou amedrontamento dos cidadãos sobre qualquer fato que julgam "violar" regras. [...] Acresce a isso a cultura do suborno, em Angola chamado "gasosa"." Aqui.

Mazula no DZ sobre guerra

O ex-reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Prof. Brazão Mazula, disse ao "Diário da Zambézia" que o país está em guerra. Aqui.

23 junho 2014

Futebol

Veja-se o Holanda/Chile, neste momento: uma Holanda mecanizada, sem brilho, parece uma máquina sem humanidade, inutilizadora da criatividade individual; um Chile de jogo rendilhado, parece a humanidade em protesto contra a mecanização, cada jogador é uma criação. Acho que este mundial assinala o fim da criatividade rendilhada e a supremacia do futebol-máquina, futebol-robô.

Amanhã neste diário

No "Savana" 1067 de 20/06/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do semanário "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei. 
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

O mundo dos negócios em Moçambique

Cabeçalhos das mais recentes notícias sobre o mundo dos negócios em Moçambique no Africa Intelligence, aqui.

Poder revelando-se

Cerimónias propiciatórias oficiadas pelos curandeiros em memória dos espíritos, coros de pendor religioso e espectáculos musicais são alguns dos ingredientes usados na produção simbólica e massiva de poder político em dias de festa. Do topo à base da cadeia do poder, do grandioso ao modesto, da capital ao território sem altifalantes do chefe de posto, ritmadas pelas bandeiras do Estado e do partido, as comemorações sucedem-se, em cerimonialismo cuidadoso: nenhum chefe as perde ou as esquece, sagradas que são. Aqui.

22 junho 2014

O que é futebol?

O futebol é a mais imponente e mediática forma de religião profana da actualidade. Aqui.

Perfeitamente fascinante

É perfeitamente fascinante conhecer as opiniões de certos deputados que, após terem votado as leis das regalias, surgem agora, na imprensa, a dizer, com ar convicto, que o reenvio para repensagem na Assembleia da República feito pelo Presidente Guebuza é uma medida sensata.

O imbróglio político de Carrupeia

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Racismo académico

Uma outra forma sofisticada de racismo habita não no dia-a-dia das ruas e do bula-bula das esquinas populares, mas nas universidades, nos centros sagrados do saber institucionalizado. Racismo biológico, racismo clássico? Não, não se trata desse tipo de racismo, mas - digamos, numa outra formulação - de racismo epistemológico. Por séculos, a divisão social do trabalho no modo capitalista  de produção e distribuição deu origem a uma classe especializada na produção e na disseminação de um determinado tipo de conhecimento: a classe dos académicos. Ancorada na convicção de um conhecimento superior da realidade natural e social, esta classe da aristocracia epistemológica tem sido responsável por um enorme epistemicídio em relação às formas de conhecimento populares. É neste sentido que falo de racismo académico. Aqui.

Lá no Niassa

Amplie a imagem em epígrafe clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato. Em língua yaawokucela significa amanhecer. Sobre a província do Niassa, aqui.

21 junho 2014

"À hora do fecho " no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1067, de 20/06/2014, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

20 junho 2014

Coleção mundial em português à venda em Maputo

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Amanhã neste diário

Tradicionalcracia

Há como que um consenso elitário em torno de uma africanidade essencial, biologizada e a-histórica, agindo homeostaticamente em todos os Africanos, operando a modos de um tropismo ou de um reflexo pavloviano. Nas palavras de Balandier, como se fixada num eterno presente etnográfico. Um bom e recorrente exemplo é o de muitos de nós dizermos - serena e quantas vezes publicamente - que a norte do Zambeze as populações são matrilineares e a Sul, patrilineares, como se só esse pudesse ser o fatal e congelado destino dos Moçambicanos. Na realidade, abunda, tenaz, a afrociência do tipo "é assim que as coisas são em África". Como na ideia finalista das "disposições estabelecidas pela natureza", diria Engels, muitos de nós defendemos que os Africanos foram feitos para serem tradicionais, tal como "os gatos foram criados para comer os ratos, os ratos para serem comidos pelos gatos, e o conjunto da natureza para testemunhar a sabedoria do criador”.

Sobre a distância política

A distância política é menos a medida de separação entre pessoas do que o conjunto de avisos e interditos, visíveis e invisíveis, externos e internos, erguidos a cada momento pelos dominantes diante dos dominados. Cada dominado aprende, desde que nasce, a conhecer e a temer os dominantes e suas práticas, os gestores do poder político e seus símbolos. Os césares habitam locais situados a cautelosa distância dos dominados, resguardados e vigiados em permanência. Contudo, o mais decisivo dos interditos não é o símbolo físico - a casa especial, o castelo, o palácio, a muralha, o aviso escrito, os membros da segurança, a etiqueta sinalizadora - mas o conjunto interiorizado e rotinizado de reverências e de medos, o conjunto de muros psicológicos que habitam os dominados, tornados hábitos desde a mais tenra idade. A distância está especialmente dentro dos dominados, são estes, afinal, que a produzem e reproduzem.

19 junho 2014

O mundos dos negócios em Moçambique

Não há seres humanos abstractos

Os homens e as mulheres não são os homens e as mulheres em geral, não são pura "natureza humana". São, antes, rigorosamente, seres "reais" que vivem numa dada época histórica, em determinadas condições sociais, em percursos de assimetria social precisos, que trabalham, que lutam, que sofrem ou se alegram e morrem, que precisam de se alimentar, de se alojar, de cuidar da família, de ter tratamento médico, de se sentirem compreendidos e protegidos, etc. Os homens e as mulheres são socialmente diferentes, uns vivem melhor do que outros. A "natureza humana" é um logro.

Ganho enorme

Aprendemos desde pequenos a organizar a sociedade em círculos concêntricos de coisas e pessoas - espécie  primária de gavetas cognitivas orientadoras - que decrescem de importância, se esbatem e se tornam incompreensíveis e sem importância à medida que saímos dos nossos pequenos grupos de referência (família, grupo laboral, grupo da igreja, grupo de vizinhos, etc.). Produzir a sociedade enquanto sistema, conflito e sentido para além e a partir dos pequenos círculos cognitivos domesticados do nosso dia-a-dia é, sem dúvida, um ganho enorme.

Estética panóptica

Sem dúvida que é uma expressão aberrante, a do título desta postagem, uma expressão aparentemente  contraditória, expressão que procura dotar a mentalidade punitória de uma concepção do belo. Mas tenho por hipótese que há gente que sente beleza na punição, que a anseia pela sua produção instintiva e orgiástica de prazer, que a procura consumir regularmente como complemento da vigilância em geral e da vigilância ideológica em particular, que a erige em guia simbólico de acção na busca do adestramento total e final dos que são diferentes e dos que pensam para além da superfície dos problemas e das receitas. Uma hermenêutica das medidas punitivas propostas por certos opinadores panópticos - como, também, do seu perfil de delatores directos ou indirectos - pode revelar que elas vão, não poucas vezes, para além do perímetro das faltas - ligeiras ou graves - cometidas pelos infractores de normas e leis. Torna-se necessário analisar os potenciais de violência punitória existentes nos que, não poucas vezes, dizem combatê-la.

18 junho 2014

Um dado preocupante

Uma fonte assegura que, dos 24 milhões de habitantes de Moçambique, cerca de 18 milhões "vivem em casa de condições precárias, com sérios problemas de falta de saneamento, eletricidade e água, etc." Aqui.
Adenda às 18:10: a serem reais, os dados apresentados merecem uma ampla e imediata discussão.

Esta semana à venda em Maputo

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As verdadeiras chaves do social

Quanto mais insistimos nos aspectos fora de comum, na superfície dos fenómenos (a este nível com um forte pendor psicologizante), quanto mais ênfase damos ao espectáculo de coisas, mais escondidas ficam as verdadeiras chaves do social. Desta maneira, aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais, desta maneira a pasteurização social elimina os "microorganismos patogénicos" sociais. Aqui.

Linguagem armada

Porém, não raras vezes, são os mais intrépidos campeões do apelo à paz aqueles que, a todo o momento, pelos mais variados motivos, a põem em causa com a sua linguagem armada, com o seu séquito de diatribes e de expressões mutilantes, com as suas críticas-AKM. Aqui.

17 junho 2014

Senhorismo de guerra em Moçambique

Parece prosseguir o senhorismo de guerra em Moçambique, de acordo com o "@Verdade" na sua página do Facebook em relação à província de Sofala aqui e o "Diário da Zambézia" digital no tocante à província da Zambézia aqui.
Adenda: aguardo o noticiário das 19:30 da "Rádio Moçambique".
Adenda 2 às 19:34: citando o comandante da polícia de Sofala, a "Rádio Moçambique" reportou dois ataques, levados a cabo pela Renamo, a alvos civis, ocorridos ontem entre o Save e Muxúnguè, com um ferido e danos materiais em duas viaturas. Nenhuma referência à Zambézia.

Simango e Guebuza: dois ensaios eleitorais

"Assim comecei e assim se deve começar. Do cimo da montanha tem-se uma visão muito mais precisa do fundos dos vales" (comentário de Napoleão Bonaparte à introdução de Nicolau Maquiavel no O Príncipe)
Primeiro foi Deviz Simango, presidente do Movimento Democrático de Moçambique, ao criticar a posição da bancada do seu partido que, na Assembleia da República, aprovou, juntamente com as bancadas da Frelimo e da Renamo, um projecto de lei que assegurava regalias excepcionais aos deputados. Aqui. Foi agora a vez do presidente da República, Armando Guebuza, devolver, para reapreciação na Assembleia da República, "a Lei da Revisão da Lei do Estatuto, Segurança e Previdência do Deputado e a Lei da Revisão da Lei 21/92, de 31 de Dezembro, que estabelece os Direitos e Deveres do Presidente da República em Exercício e após Cessação de Funções". Aqui.
A posição de Simango foi classificada ora de tardia em certos quadrantes digitais, ora de sintoma de descoordenação no MDM.
No tocante à posição do presidente de República, ela foi, generalizadamente, classificada como exercício de cidadania.
Parece-me sensato considerar que ambos, Simango e Guebuza, foram, afinal, cidadãos atentos, "cidadãos da cidadania".
Porém, a vida política é bem mais do que um exercício de pujança opinativa e de ética cidadã.
Na verdade, conscientes de que as eleições marcadas para este ano podem penalizar severamente certas posições e certos anseios, Simango e Guebuza desaprovaram o que outros, em seus partidos, tinham aprovado. Assim procedendo, puseram em movimento uma forte afirmação pessoal extrapartidária do género "sou capaz de estar acimas das paixões dos meus companheiros", no caso de Simango uma posição de candidato presidencial, no caso de Guebuza uma posição de presidente do Partido Frelimo pós-Outubro e de promotor da candidatura de Filipe Nyusi. Essa forte afirmação extrapartidária visa recalibrar os anseios partidários, reoxigená-los, mas colocando de forma destacada, bem à garupa, a densidade dos perfis dos chefes.
Estamos, então, perante dois ensaios eleitorais, um imediato, outro mediato.
Estrangeiro a esses ensaios parece estar Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, algures numa mata do centro do país.

No "Savana" 1066 de 13/06/2014, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do semanário "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei. Atenção: o número da crónica devia ser 379 e não 378.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.

16 junho 2014

Beira: da luta pelos heróis à luta pelo território

Segundo o "Notícias" digital de hoje, a cidade da Beira vai ser territorialmente dividida, assim: "O lado norte passará a pertencer ao distrito da Beira. Isto quer dizer que dos 26 bairros actualmente existentes o município ficará com apenas oito bairros, na sua maioria situados na zona de cimento. O famoso posto administrativo da Munhava poderá ser redimensionado, sendo que uma parte passa para o distrito da Beira e outra para o município." Aqui. Confira também aqui. Entretanto, o presidente do município da cidade e presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Deviz Simango, recusou a proposta. Aqui.
Adenda: isso significa que o partido que gere o município, o MDM, poderá perder uma série importante de recursos de poder, quer ao nível de taxas e impostos, quer ao nível de intervenientes mobilizadores de base como sejam régulos, secretários de bairros, etc. Poderemos assistir a uma nova disputa política, herdeira da antiga luta pela gestão de heróis nacionais entre a Frelimo e a Renamo. Recorde, para o caso da Beira, aqui.
Adenda 2 às 03:20 de 18/06/2014: leia o "O País" digital, aqui.

Opinião

Aqui (referência enviada por RC).

15 junho 2014

Simango e Guebuza: dois ensaios eleitorais

O cidadão A foi designado ministro

Um dia o cidadão A foi designado ministro. Antes dessa grande odisseia e tal como  o geral dos seres humanos prosaicos, o cidadão A tinha uma alma horizontal. Com a grande odisseia e de forma vigorosa após ela, a alma tornou-se vertical. Nas mais insignificantes coisas, pelos mais variados pretextos, não importa em que condição e tempo, o cidadão A  só podia ser sendo em cima, olhando e falando de cima. E tal como para discursar  - no que ganhou gesticulado gosto - era fundamental que o fizesse em sítio absolutamente alto, com as palavras jorrando bem do alto, também não mais pôde dormir senão numa cama de base alta, bem acima do soalho, como as crianças em seus beliches. Desta forma, ao acordar de manhã, renovava o prazer de ver a sua augusta e gloriosa alma vertical vencer o pobre corpo horizontal.
Adenda às 16:24Recordei-me de um texto satírico publicado em 1733, segundo o qual a alma é um espelho com dois lados: o plano, feito por um Deus todo-poderoso e o cilíndrico, feito pelo Demónio. O plano representa os objectos tal como eles são; mas o lado cilíndrico faz falsos os objectos verdadeiros e verdadeiros os falsos (Swift Jonathan [attribué à], L'art du mensonge politique. Paris: Jérôme Millon, 1993, pp. 32-33).

Do lançamento em Lisboa do "O que é racismo?"

Imagens do lançamento na sexta-feira, em Lisboa, "Praça Verde" da Feira do Livro, do número "O que é racismo?", da Escolar Editora. O antropólogo Paulo Granjo, um dos co-autores, fez uma apresentação da coleção "Cadernos de Ciências Sociais". Seguiram-se os comentários ao livro, a cargo do Prof. Jorge Vala (psicólogo social, especialista em racismo e identidades nacionais, até há poucas semanas director do principal instituto português de pesquisa em ciências sociais - ICS-UL) e de Mamadou Ba (activista dos movimentos de imigrantes, dirigente do SOS Racismo e co-redactor do recente "Carta de Lampedusa."). Agradeço ao Paulo Granjo o envio das fotos.

Apostolado político

Nos períodos de propaganda eleitoral intensa, de veemente apostolado político, como está a suceder entre nós, certos políticos ávidos - eles e elas - vestem-se de forma diferente, ostentatória, consoante hábitos culturais e religiosos de certas regiões. Chegam, mesmo, a querer mostrar que dançam como os locais. Tudo fazem para, perante a imprensa, mostrar que são puramente locais, puramente originários, puramente genuínos.

O risco das generalizações

Estupros e assassinatos de mulheres na Índia levaram o grupo "YesNoMaybe" a fazer uma experiência em Nova Délhi destinada a estudar as reacções das pessoas ante o estupro. A conclusão é abusiva, pois nada no vídeo revela a indiferença generalizada apontada no título da primeira imagem abaixo.

"Estamos na rota certa", "As pessoas estão satisfeitas", "As populações disseram que querem um tractor", "Estamos a vencer as dificuldades", "São orientações do partido", "Os europeus", "Os africanos", "O povo confia em nós", "Vídeo mostra falta de reação dos indianos diante de estupro em Nova Délhi" - eis alguns  problemas generalizantes do que Georg Simmel chamou, um dia, "unidade psicológica de grupo". Em que consiste essa unidade? Consiste  na produção de uma totalidade unitária da qual são eliminadas as diferenças entre os indivíduos. Eis os problemas que Simmel levantou: é a unidade de grupo construída a partir de processos psíquicos dos dirigentes? A partir de um tipo médio? A partir da maioria dos membros do grupo? A partir de que efectivo os desviantes seguros ou prováveis podem ser tomados como quantidade  negligenciável? Em que medida o carácter mais ou menos rigoroso da "interdependência funcional" (sic)  ligando os membros do grupo autoriza ou interdita tratar a informação lacunar de que dispomos como caução da unidade psíquica do conjunto? O que chamo problema de Simmel permite, creio, interessantes exercícios analíticos, a começar logo pelos políticos.

Panorama social 2014/Crise e suas consequências

"Decorridos mais de cinco anos desde o início da crise financeira, as elevadas taxas de desemprego e a perda de rendimentos estão a agravar as condições sociais em muitos países da OCDE. A capacidade dos governos para fazerem face a estes desafios é condicionada pela consolidação orçamental. Contudo, os cortes nas despesas sociais correm o risco de aumentar as dificuldades dos grupos mais vulneráveis e podem criar problemas para o futuro." - sumário em português de um relatório em inglês com indicadores sociais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicoaqui. (referência enviada por RC)

14 junho 2014

Território de recursos de poder

Quem detém o poder político tudo fará para travar o acesso dos adversários, não importa por que meio, a que nível e onde, tudo fará para convencer outrem sobre a naturalidade do usufruto desse poder, para tornar universais os interesses particulares, evacuando a história da história, procurando anestesiar as mentes, protegendo duramente o seu território de recursos de poder.

Sobre "Postagens na forja"

A secção "Postagens na forja" deixa de ser colocada a partir de hoje. Algumas das séries nela mencionadas poderão ser retomadas futuramente.

Alastra senhorismo de guerra em Moçambique

Nas suas páginas do Facebook, dois jornais digitais, "Canal de Moçambique" e "@Verdade", noticiaram um ataque na madrugada de ontem de guerrilheiros, ao que parece da Renamo, no distrito de Moatize, com destruição de uma báscula, roubo de armas e incêndio de uma viatura, aqui e aqui. O ataque não é reportado pelo "Notícias" digital de hoje. Aqui. Por outro lado, o portal da "Rádio Moçambique" está em manutenção faz muito tempo. Aqui. Enquanto isso, o presidente da República está em presidência aberta na província de Tete. Aqui. Por outro lado, segundo a "Lusa", o porta-voz da Renamo considerou extemporâneo o cessar-fogo. Aqui. Entretanto, foi aberta uma escola para forças especiais da polícia. Aqui.
Adenda: recorde textos meus intitulados "Quatro cenários pós-Santungira e o problema da soma não-zero" e "Duopólio político e equilíbrio à Nash (sobre as exigências da Renamo)", respectivamente aqui, aqui e aqui.
Adenda 2 às 05:44: recorde também aqui.
Adenda 3 às 05:50: "Sobre a importância do importante", um texto meu aqui.
Adenda 4 às 05:52: "Para a história dos recursos de poder: texto de 2000", aqui.

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1066, de 13/06/2014, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.