Mais um pouco desta série, ainda com mais alguma introdução, sempre - como é meu hábito - operando com hipóteses. Os protestos populares de Fevereiro de 2008 e de Setembro deste ano revelaram insatisfação social. De forma apressada nuns casos, conveniente noutras, tentou-se mostrar que (1) tudo tinha a ver com preços elevados e que (2) esses preços eram resultado único da crise financeira mundial e de oscilações de mercado. Por outras palavras, quis-se mostrar que, não havendo preços elevados e não havendo perversidade internacional, tudo estaria bem, especialmente porque o nosso povo é pacífico por natureza. Tudo? Tudo não: foi ainda preciso dar conta dos desígnios de uma mão oculta, da maldosa mão que sempre aparece para desviar o nosso povo dos bons e ajuizados caminhos.
E de quem podia e pode ser essa mão oculta? Evidentemente que de um tenebroso inimigo externo fazendo uso de submãos caseiras, de submãos caseiras naturalmente pertencentes à oposição.
Não havendo alta de preços, mercado internacional, mão externas e oposição, o paraíso reinaria definitivamente nesta terra.
Mas o grande problema, agora, é a forte e variada crítica oriunda de Graça Machel, de Marcelino dos Santos e de Jorge Rebelo. Vejam lá, que coisa bizarra: não pertencem aos bairros das periferias urbanas, não são dos partidos da oposição, não partiram montras nem assaltaram padarias, não são vândalos, não estão ao serviço de tenebrosos inimigos externos. São figuras de grande nobreza histórica, são figuras proeminentes da luta de libertação nacional, são patriotas, são figuras do partido no poder. Os seus temas não são os preços, o mercado internacional, as mão externas e os partidos da oposição. Os seus temas têm a ver com o partido no poder (o seu próprio partido) e com o Estado (que conhecem e do qual fizeram parte).
Há, então, quem se surpreenda no geral, quem se horrorize no particular: camaradas, inimigos, polícias ideológicos, políticos, jornalistas, eruditos, gente comum, jogadores de palavras, polichinelos de vários azimutes. Digamos assim: um bocado todos nós. Receio que aqui e acolá surja a ideia do patológico. Parodiando Shakespeare: há algo de podre não no reino da Dinamarca, mas no reino das coisas sensatas.
Terminada a introdução, permito-me propor o seguinte sumário:
1. As causas do espanto
2. Os temas da frente crítica
3. O futuro
(continua)