Dambisa Moyo: cortar ajuda a África...


Mais um pouco, mesmo pouco por agora, desta série.
Bem, faz tempo que eu não prosseguia a série com o título em epígrafe. Perversa distracção a minha!
Mais um pouco da série.
Tudo leva a crer que a 11 de Fevereiro estará formado o governo inclusivo, o governo de unidade nacional, no Zimbabwe. Talvez não fosse má ideia escrever um pouco sobre o futuro do país. E, especialmente, colocar-me e colocar-vos esta pergunta: e se o GUN se transforma num GUE, num governo de unidade elitária?
O jornalista Pedro Nacuo produziu um retrato do Estado em Cabo Delgado. Eis um pequeno extracto: (...) essa tendência cada vez mais eloquente de que o nosso Estado, aqui, vive de esquemas, sobrevive da violação das suas próprias leis. É Estado mesmo? Somos induzidos a assim pensar, quando na verdade, as violações vestem-se de premeditação e terminam no mesmo ponto em que começam, nomeadamente, não cumprir as leis que ele próprio aprovou e mentiu que impunha a tudo e todos vivendo ou tendo relações com este território nacional."
Trabalhava esta manhã um pouco sobre linchamentos e sobre a mentalidade linchatória em Moçambique quando decidi investigar se a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) - muito procurada em Maputo pelo povo e pelos governantes - também tem preceitos como aqueles da Maná. Sim, também tem, exactamente também 16 e o seu conteúdo pouco difere daqueles que fazem parte da Maná. E lá estão os dízimos em prol de Deus por parte dos cristãos com direito à "vida abundante" (preceitos 11° e 14.°) e, claro, a severa punição no 16.° com o lago cheio de fogo e enxofre para os malandros, apenas com pequenas variações na formulação (o preceito da Maná é mais duro):
Amo estudar tudo aquilo que seja um produto organizado destinado a dar fé, a criar uma identidade, a gerir uma esperança, a produzir um crença sistemática e sem reservas. Amo especialmente estudar as igrejas evangélico-salvacionistas - fenómeno cada vez mais possante no mundo - com o seu poderoso arsenal de promessas fantásticas e de milagres espantosos. E amo, sem dúvida, estudar o que se propõe e o que se pune em nome da Bíblia. A Igreja do Maná (de Jorge Tadeu, seu fundador e presidente), concorrente da Igreja Universal do Reino de Deus (de Edir Macedo), tem, na sua manifestação de fé, 16 convicções (sic), constantes do seu portal em Moçambique. Achei interessante salientar duas, uma que fala da prosperidade material (este é um campo excelente para pesquisa, a busca incessante de dízimos) e outra que anuncia uma punição excepcionalmente severa (a qual não é, certamente, mais suave do que aquela que os linchadores do país impõem à suas vítimas, sovando-as ou queimando-as), salientando a vermelho passagens que considero significativas:
A proeminente activista direitos humanos do Zimbawe, Jestina Mukoko - frequentemente referida neste diário -, continua detida e não há notícias sobre ela nos últimos dias. Uma das mais recentes data de 15 do corrente mês. Ela e outros detidos contaram como foram torturados. Confira aqui.
O MDC-T irá fazer parte do governo de unidade nacional no Zimbabwe - assegurou Morgan Tsvangirai. Confira aqui na BBC.
Do editorial do semanário "Savana" desta semana, dedicado a Eduardo Mondlane, de quem o jornal diz não ser apenas nosso herói, mas herói de todos os povos: "Terça-Feira próxima, dia 3 de Fevereiro, é dia de Eduardo Mondlane, neste ano que também é dedicado a Eduardo Mondlane. Trata-se da data em que no já lá ido ano de 1969, em Dar-e-Salaam, uma bomba escondida num livro explodiu nas suas mãos, matando-o instantaneamente. (...) Uma das formas mais sublimes de prestar homenagem a Mondlane é não aceitar sermos engolidos pelos mesmos vícios que o colonialismo contra o qual ele lutou representava. Isso significa combater tenazmente a corrupção, a acumulação ilícita de riqueza, a insensibilidade perante as necessidades do povo."
A propósito de "As andorinhas", novo romance de Paulina Chiziane (minha escritora predilecta, na imagem), a autora contou o seguinte: "(...) certa vez, Ngungunhana ordenou silêncio e umas pequenas criaturas - as andorinhas - perturbaram, do cimo de uma árvore, o seu descanso. Uma delas defecou lá de cima para a cabeça do rei. Na fúria que lhe era característica, o imperador chamou os seus homens e ordenou-os a caçarem todas as andorinhas. O resultado dessa determinação é que eles saíram à caça das andorinhas, porque o rei as queria vivas junto de si para as castigar. Pelo caminho, acabaram por se confrontar com os portugueses. O fim é o que todos sabemos: o império chegou ao fim, o imperador foi preso e o seu poder acabou - por causa de uma andorinha."
"Os bispos católicos da África austral pediram (...) ao presidente zimbabweano Robert Mugabe para se demitir e apelam os dirigentes da região a cessarem todo apoio a um governo responsável a seus olhos de um "genocídio passivo". O Zimbabwe passou do estado de crise a de desastre para chegar a um genocídio passivo", declarou o arcebispo de Joanesburgo Buti Tlhagale (na imagem, CS) após uma reunião da Conferência episcopal da África Austral em Pretória." Confira aqui. No tocante ao imensis confira aqui; no "O País" de hoje, leia a p. 20.
Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual vos dou, desde já, dois aperitivos:
Pela primeira desde a independência, o governo do Zimbabwe libertou um orçamento com base na moeda estrangeira. Confira aqui.
Escreve o "Notícias" de hoje que "A Polícia da República de Moçambique (PRM) ainda não encontrou matéria suficiente para concluir a existência de uma ligação entre os assassinos de um guarda do complexo açucareiro da Maragra, na Manhiça, em Maputo, e os bandidos que arrombaram o arsenal da unidade da corporação no local e roubaram seis armas na noite do último sábado." Faltou, apenas, comentar a razão ou as razões por que a esquadra estava deserta quando os meliantes lá foram roubar as seis armas.
Eis um notável exemplo de como o "Notícias" trata a oposição política do país e do orgiástico prazer que sente pelo que entende estar a passar-se, indo a vermelho os termos mais castrenses e mais desqualificantes: "Queixas e reclamações. Lamúrias. Tal é o cenário que caracteriza hoje os partidos políticos da oposição em Moçambique. Tudo porque a sua participação nas eleições autárquicas de 19 de Novembro foi um autêntico descalabro. Um pesadelo. Foram esmagados e espezinhados tanto na corrida à presidência dos 43 municípios como na concorrência às assembleias locais, para a total decepção dos seus correligionários. O que se segue a essa pesada e indigesta derrota são as deserções massivas dos seus membros, que se filiam maioritariamente ao partido no poder, o sumiço dos seus dirigentes o que faz antever as “exéquias” de algumas destas organizações políticas.
Segundo a BBC, os Zimbabweanos serão autorizados a usar outras moedas, além do dólar zimbabweano. O anúncio foi feito pelo ministro interino das Finanças do Zimbabwe. Confira aqui.
O "Savana" desta semana apresenta Ossufo Momade, secretário-geral da Renamo, a dizer que os pronunciamentos de Maria Moreno e de Eduardo Namburete não vão alterar a posição da liderança da Renamo e que o seu partido "vai mesmo fazer empossamentos paralelos" (p. 2).
O ano passado, na voz do bastonário Aurélio Zilhão, ex-ministro da Saúde, a Ordem dos Médicos de Moçambique ameaçou não reconhecer os graduados saídos da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane. Na altura, o bastonário queixou-se de que a ordem não foi consultada antes da aprovação do novo currículo. Agora é a vez da Ordem dos Engenheiros não concordar com o novo currículo de formação de engenheiros na Universidade Eduardo Mondlane, queixando-se igualmente de não ter sido consultada. O bastonário é Carmo Vaz.

No "Canal de Moçambique", os jornalistas Fernando Veloso e Luis Nhachote escreveram sobre o que consideram ser o descalabro da Renamo e sobre um novo movimento chamado Movimento para a defesa da Democracia, cujo dirigente poderá ser Deviz Simango. Confira aqui. Enquanto isso, o jornalista Aunicio da Silva escreveu sobre as peripécias da votação autárquica de 19 de Novembro, com referência a "votos caseiros" (sic) e a curandeiros. Leia aqui. Finalmente, o "O País" cita Dhlakama declarando que a segunda volta das autárquicas em Nacala-Velha só foi possível graças à intervenção de Deus, que impediu a fraude da Frelimo. Consulte aqui.
Um morto e três feridos graves (dos quais dois polícias) é o resultado de escaramuças ocorridas terça-feira na ilha de Ionge, localidade de Maquivale, distrito de Nicoadala, província da Zambézia, depois que habitantes acusaram as autoridades locais de prender a chuva no céu (sic). Segundo um jornalista da Rádio Moçambique, quando a chuva tarda, é regra local atribuir-se a causa a alguém abastado, dizendo-se que prendeu a chuva no céu. Populares queimaram casas e quando a polícia tentou intervir para deter os responsáveis, foi recebida com paus e pedras (Rádio Moçambique, jornal da manhã, em manchete às 6 horas).
A ironia, a capacidade de enxertarmos o riso no coração do real, é coisa que absolutamente rareia na nossa blogosfera. Regra geral a escrita é sisusa, grisalha, boletim oficial, frequentemente chata. Mas temos algumas excepções excelentes: a da Zenaida, a do Chagas e a do Paulo. Se omiti alguém, por favor corrijam-me..jpg)
Reportou a Rádio Moçambique que "a população da aldeia de Mavanga, distrito de Montepuez, em Cabo Delgado, revoltou-se contra as autoridades locais, devido à cólera que já matou pelo menos 11 pessoas naquele região do norte do pais. Os populares realizaram manifestações de repúdio pela alegada incapacidade das autoridades locais no combate à doença, uma situação que foi posteriormente controlada pela polícia. Segundo os residentes da aldeia de Mavanga, duas pessoas terão perdido a vida no Centro de Saúde local e as restantes morreram fora das unidades sanitárias. Entretanto, o administrador de Montepuez, Fernando Natal, deslocou-se de emergência para a aldeia de Mavanga, onde sensibilizou a população sobre as medidas de prevenção de cólera."
Há raiva popular em Madagáscar, não muito longe de nós. Em "Tana" e nas principais cidades provinciais, amotinados têem atacado prioritariamente as empresas de Marc Ravalomanana, que, além de ser presidente da República e vice-presidente da Igreja reformada, está à cabeça do primeiro grupo económico do país. O presidente prosperou muito nos seus múltiplos negócios desde a ascensão ao poder em 2002. Esse o resumo de um texto em francês, que faz uso da expressão "presidente-empresário, no La Croix. Se não sabe francês, use o tradutor situado no lado direito deste diário. Já agora, leia um outro texto aqui, em inglês.
A Casa Branca tem um blogue para dar conta das actividades do presidente Barack Obama. Quem o actualiza são os seus assessores. Obrigado ao Eugénio Chimbutane pela envio da referência no mural de recados situado no lado direito deste diário.
Sabem, recebo, cada dia em maior número, montes de emails, de informações, de artigos, de pedidos de todo o tipo, de sugestões, etc. Acontece que nem sempre tenho capacidade de dar vazão a tudo, de escolher as prioridades. Por outro lado, dado que modero os comentários, nem sempre posso editá-los de pronto, dependendo da minha disponibilidade. O meu perdão e o meu apelo à vossa compreensão caso eu fraqueje em responder tal como e quando cada um gostaria que eu respondesse. Obrigado.
Segundo o AmphulaFax, pilotos-aviadores vão graduar-se este ano em Moçambique sem nunca terem pilotado aviões. Eis a notícia: "Os pilotos aviadores que integram o grupo dos primeiros oficiais das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) que, este ano, vão graduar na Academia Militar Samora Machel ainda não foram submetidos a exercícios práticos, apesar de se encontrarem na fase de tirocínio, período destinado a aulas de prática." Confira a notícia na íntegra aqui. Obrigado ao Eleutério Fenita pelo envio do jornal por email.
Multiplicam-se as declarações de falência de muitas empresas, sucedem-se os anúncios de desemprego em todo o mundo devido à crise capitalista. Eis uma notícia-síntese: "O desemprego aumenta em todo o mundo, impulsionado pelos efeitos nefastos da crise financeira mundial. Segundo as previsões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, (OCDE) e da Organização Mundial do Trabalho (OMT), até 2010, entre 20 e 25 milhões de pessoas devem ficar desempregadas. Em 2009, o número de desempregados no mundo deve bater o recorde de 210 milhões de pessoas." Confira aqui.
A Europa corre o risco do desemprego e do protesto social generalizados. Em algumas semanas, muita gente desempregada. Os jovens desesperados com os pequenos empregos sem futuro. Confira aqui, em francês, no La Croix. Se não sabe francês, use o tradutor situado no lado direito deste diário.
Continue a seguir as fotografias sensoriais, as viagens, os aeroportos, o Brasil, Moçambique, aqui, no viajar na vida, vidar na viagem.
Citada pelo "O País", a chefe da bancada parlamentar da Renamo, Maria Moreno, afirmou não fazerem sentido as declarações de Afonso Dhlakama, presidente do partido, "segundo as quais vai empossar à força os seus candidatos nos municípios onde considera ter havido “crime eleitoral”. Acrescentou que não foi contactada para o efeito e que não vai alinhar em semelhante empossamento. Confira aqui. Enquanto isso, o ministro da Administração Estatal, Lucas Chomera, disse que o Estado tem meios coercivos para reprimir acções ilegais. Leia aqui.