O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2017 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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30 abril 2009

Por que Moçambique é pobre? O discurso de Guebuza sobre a pobreza

Regresso às intervenções feitas na II Conferência do IESE, desta vez com um texto do Professor Sérgio Chichava intitulado "“Por que Moçambique é pobre?”. Uma análise do discurso de Armando Guebuza sobre a pobreza". Resumo: "A pobreza e a luta contra a pobreza são temas em voga nos meios políticos e nas instituições financeiras internacionais. Todos dizem-se empenhados em combater a pobreza, que ainda atinge uma parte importante da humanidade. Sendo Moçambique um país extremamente pobre e dependente da ajuda internacional, é óbvio que este tema também esteja na moda e constitua, pelo menos oficialmente, prioridade dos políticos e da sociedade no seu todo. Armando Guebuza, actual presidente de Moçambique, não se tem fartado de dizer que o combate à pobreza é um “desígnio nacional”, e que constitui o objectivo primário do seu mandato. Neste sentido, este artigo procura compreender como a questão da pobreza aparece e é interpretada no discurso de Armando Guebuza. "
Confira o trabalho na íntegra aqui. E, finalmente, ainda sobre a visão guebuziana da pobreza, recorde este texto aqui.

Projecto em Moçambique ganha prémio climático

Nhambita Community Carbon Project (Projecto comunitário de carbono de Nhambita) em Moçambique (Nhambita fica na Gorongosa) é um dos dois projectos africanos que ganhou um prémio climático, juntamente com o Kakamega Forest Again Project no Quénia. Saiba no penúltimo parágrafo de uma notícia por que o projecto que opera em Moçambique ganhou o prémio, aqui. E confira também aqui.

Linchamentos: segundo livro este ano


Sob minha direcção, será este ano lançado o segundo volume dos linchamentos, com o título Linchamentos em Moçambique II (okhwiri que apela à purificação), produto de uma pesquisa realizada pela Unidade de Diagnóstico Social do Centro de Estudos Africanos, desta vez versando sobre linchamentos por acusação de feitiçaria. Na imagem, uma senhora a quem foi cortada uma mão por ter sido acusada de feiticeira, algures no nosso país.
Adenda: enquanto isso e a cargo da mesma unidade, decorre uma pesquisa com o tema Potenciais de xenofobia em Moçambique, que dará origem a um livro no próximo ano. O trabalho de campo começa no próximo mês.

Pesquisa: este diário classificado em 9. ° entre 150 websites tratando de pobreza

O Professor António Francisco do IESE realizou uma pesquisa que deu origem a um trabalho com o título "Como é que a Pobreza é Projectada e Percebida a Partir das Janelas Virtuais da Internet? Resultados de uma Pesquisa a 150 Websites". Este trabalho foi apresentado na recente II Conferência do IESE. Eis um extracto:
Em resumo, a partir da descrição anterior, os cinco melhores sites (com classificação satisfatória), entre os 150 websites contemplados na pesquisa, são os seguintes:
. World Bank (http://web.worldbank.org)
. Center for Global Development (www.cgdev.org)
. Eldis Community (www.eldis.org)
. Taking it Global (http://issues.tigweb.org/poverty)
. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (www.ibge.gov.br)
Dos sites nacionais, é interessante constar dois aspectos dignos de destaque. Primeiro, o blog de oficinadesociologia.blogspot.com, de Carlos Serra surge classificado em 9º lugar, entre os 150 Websites relevantes para o debate sobre pobreza. Ou seja, de uma dúzia de 12 sites moçambicanos, o Blog de Carlos Serra aparece em primeiro lugar, seguido de dois outros blogs (Macua, em 10º lugar) e Ideias Crítica (de Elísio Macamo, em 25º lugar), todos individuais, apresentam-se com mais relevantes para o debate sobre pobreza que os sites de entidades colectivas. O Site do MPD (Ministério da Planificação e Desenvolvimento) obteve 8 valores, ficando à frente dos demais sites colectivos. Segue-se o site do IESE, com apenas um ano de existência, posiciona-se em 43º lugar, à frente do IMF (47º lugar), do Portal do Governo (51º lugar), do Cruzeiro do Sul (68º lugar), do site do PAP (Programme Aid Partnership, em 96º lugar) e do INE (Instituto Nacional de Estatística, em 136º lugar). Este último, o site do INE, apresenta-se com a pior classificação entre os sites nacionais incluídos nesta classificação; a posição do site do INE está abaixo dos sites da KULA, WLSA e do CIP."
Comentário: evidentemente que me orgulha muito saber do que acabei de saber.

Discurso político e pobreza em Moçambique: análise de três discursos presidenciais

O Professor Luís de Brito, do IESE, apresentou uma comunicação na II Conferência do instituto, com o título em epígrafe. Eis o sumário: "Nesta comunicação procuramos caracterizar o discurso presidencial moçambicano no início do mandato de Armando Guebuza, analisar o lugar que a questão da pobreza ocupa nesse discurso e a forma como ela é abordada. São objecto de estudo três discursos: o seu discurso de investidura, o discurso na tomada de posse dos primeiros membros do governo nomeados e o discurso na tomada de posse dos governadores provinciais e restantes ministros e vice-ministros. A comunicação apresenta as grandes linhas do processo de estruturação do actual campo político moçambicano, identifica os temas centrais das três intervenções presidenciais e o lugar que nelas ocupa a questão da pobreza no contexto de um discurso essencialmente nacionalista; mostra ainda que, para além do tratamento da questão da pobreza de acordo com a concepção que corresponde ao modelo de análise do Banco Mundial, existe um outro elemento que consiste em defender, recorrendo a um uso ambíguo da noção de pobreza, o desenvolvimento de uma burguesia nacional."
Confira na íntegra o trabalho do Professor Luís de Brito aqui.

IESE disponibiliza trabalhos

Já estão disponíveis os trabalhos apresentados na recente II Conferência do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), que reuniu centenas de investigadores e de interessados nos dias 22 e 23 do corrente mês. Nunca em Moçambique me dei conta de que a disponibilização via internet de dezenas de comunicações pudesse ser tão rápida e eficiente. Confira aqui no portal do IESE.

120 trabalhadores despedidos


De acordo com a Rádio Moçambique, 120 trabalhadores moçambicanos foram despedidos das obras de construção do futuro Estádio Nacional, no Zimpeto, acusados de agitação. Os restantes passaram por um processo de readmissão, depois da segunda greve, no espaço de três meses, ontem ocorrida e na qual a polícia feriu dois trabalhadores, um dos quais se encontra ainda sob cuidados intensivos no Hospital Central de Maputo (noticiário das 12:30). Foto reproduzida daqui.
Comentário: notícia triste, na véspera do Dia Internacional do Trabalhador. É vital que se faça um estudo em profundidade sobre a forma como os nossos trabalhadores têm sido tratados pelo patronato nas obras citadas.

Cunhadismo


Com o título "Institucionalização do nepotismo nas organizações do país", o Sr. Félix Filipe escreveu para o "Notícias" uma carta na qual afirmou que é cada vez mais difícil obter emprego nas instituições públicas e privadas. Os jornais estão cheios de anúncios de vagas, mas isso é falso - assevera ele -, pois os empregos já estão assegurados para "cunhados, vizinhos, netos, afilhados entre outras espécies de parentesco que se pode encontrar por aí". Jovens recém-graduados vivem situações dramáticas, nepotismo e clientelismo estão por todo o lado. E termina assim o Sr. Filipe: É assim que pretendemos combater a pobreza absoluta no país? Será este Moçambique para todos do qual Sua Excelência o Presidente da República falou na abertura da reunião de quadros do partido Frelimo a 19 de Abril de 2009? Estamos a transformar as organizações e, consequentemente, o país, num clube de amigos e familiares. Pensem nisso, compatriotas." (p. 5, portal do jornal está por enquanto inoperacional). Imagem reproduzida daqui.
Observação: sobre o cunhadismo, recorde aqui.

Frelimo também hicinca

Há dias reportei que o MDM estava no hi5. Mas o partido FRELIMO também lá está, desde 2006, ainda que sem mensagens este ano. Modernidade política neste país, sem dúvida. Vamos a ver quando RENAMO e PDD também se hicincam. Entretanto, exemplo de uma mensagem de choque no local hi5 da FRELIMO: "bandidos a monte roubaram um computador do gabinete do camarada primeiro secretario provincial do partido aqui em sofala. o computador é de cor preta, a marca é HP compaq DX 2200, o monitor é plasma de cor preta. favor que localizar alguem a vender um computador com estas caracteristicas avisar a policia ou enviar um e-mail para mim. obrigado. juntos na luta contra a probreza."

Zimbabwe: governo androcêntrico

Há mulheres zangadas no Zimbabwe. Por quê? Porque no governo inclusivo recentemente nomeado há apenas dez mulheres num efectivo de 71 membros. Confira aqui.

Presidente visita, coisas fazem-se

Anteontem coloquei aqui um trabalho escrito por Suizane Rafael do "Magazine Independente" mostrando, a propósito da província do Niassa, que só se fazem certas coisas quando o presidente da República viaja e vai lá onde as coisas deviam fazer-se regularmente. Agora é a vez se vos sugerir a leitura de um trabalho produzido pelo jornalista Aunicio da Silva do "Canal de Moçambique" sobre o mesmo tema, tendo a província de Nampula como referência: "Quando o chefe de Estado está para visitar alguma zona, a Administração Nacional de Estradas, ANE, manda reabilitar e/ou fazer a manutenção das vias que dão acesso aos mesmos pontos. Nunca se faz isso para os utentes. É sempre com medo que o presidente veja como se tratam as coisas deste Estado. Na província de Nampula, por exemplo, onde a partir do dia 2 de Maio próximo, o chefe do Estado moçambicano, Armando Guebuza, vai efectuar a sua “presidência aberta”, algumas vias de acesso encontram-se em manutenção. Só agora.

O que é democracia? (2)


Aí tendes a pergunta, não é?
Andamos à procura da democracia lá onde estão os outros, lá onde está você a partir de mim, lá onde estou eu a partir de você, lá onde estamos nós a partir dos outros, nós os outros, inventamos montes de termos e de explicações para a domesticar, à democracia, para a tornar clara, visível, controlada, presente e familiar a cada momento.
Cada um de nós acha, tem a certeza de que sabe o que é democracia desde que a questão seja procurar a ágora fora de nós.
E, todavia, a democracia não existe.
A democracia não existe em si, neste momento. Nem nunca existirá enquanto totalidade. Totalidade de quê? Não sei. A ideia de processo inacabado parece ser boa, não é? A ideia de luta, de aspiração, de busca.
Mas tentemos alguns caminhos. Comecemos por avaliar o nosso processo de crescimento, vamos colocar as coisas dentro do bom sendo espontâneo, vamos começar pelo eu, pela coisa pessoal, sem que eu saiba o que é "coisa pessoal".
Essa coisa pessoal onde, desde que nascemos, são instalados ditadores, interdições, castigos, medos.
(continua)

29 abril 2009

Muros para travar favelas

Para conter a expansão das favelas, o governo do Rio de Janeiro vai construir muros em torno de 11 favelas. Serão 11 mil metros de muros de três metros de altura ao custo de 40 milhões de reais. Parte de um comentário do escritor português José Saramago: "(...) Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio." Confira aqui. Obrigado à YV pelo envio da referência.
Observação: recentemente, quando da minha estadia em Fortaleza, Brasil, impressionou-me saber que essa é a mais favelada cidade brasileira (mais de 700 favelas). Saber e ver. Porque vi um pouco de algumas favelas, à noite. Mas não são favelas como as do Rio, feitas de material perecível, são favelas de prédios degradados. Cada vez mais nos aproximamos de um futuro no qual uma parte significativa das cidades do mundo terá uma cabeça nobre literalmente vedada à plebe (condomínios, cercadura e vigilância electrónicas, polícia privada) e um corpo plebeu deixado ao deus-dará.

Tiranos

"(...) Não existem tiranos sem aqueles que os fazem e sem aqueles que nele crêem."- Sperber, Manès, Psychologie du pouvoir. Paris: Éditons Odile Jacob, 1995, p.96. Imagem reproduzida daqui.

Ndeve, o lubrificador


Sobre Felizberto Ernesto Ndeve, que tem banca de cura-tudo mesmo em frente ao 33 andares da cidade de Maputo, que afirma ter sido formado pela mãe e que parece ser especialista na "lubrificação dos órgãos genitais. Do homem e da mulher": "Diz-se bastante intrigado com um fenómeno algo estranho entre nós: o elevado número de adolescentes que o procuram: uns para “desbaratar” DTS resistentes aos fármacos convencionais e outros para conseguir “fazer pelo menos uma vez por semana com a minha namorada” ... “Estes miúdos metem-me pena... com aquela idade, bem postos, com bonitos carros e no entanto ... na cama são uns farrapos... coitados”, assim falou-nos Felisberto Ndeve." Consulte ainda aqui e aqui.
Observação: hummmm...será que ele tem mesmo razão no concernente à virilidade camal da nossa juventude?

Madagáscar tem agora dois governos

A situação complicou-se em Madagáscar, aqui perto de nós, onde há agora dois governos. Com efeito, segundo a BBC em despacho de hoje, "os apoiantes do presidente Marc Ravalomanana derrubado num golpe de estado, anunciaram a formação de um novo governo. A nomeação de seis ministros significa que há agora dois governos em funções no país, depois do antigo presidente da câmara da capital, Andry Rajoelina, ter assumido o poder numa sublevação em Março apoiada pelos militares." Imagem reproduzida daqui.

Pós-neoliberalismo


O livro com a capa em epígrafe foi concebido para despertar o debate no Fórum Social Mundial realizado em Belém em Janeiro deste ano, em edição da Dag Hammarskjöld Foundation, Uppsala, Suécia. Conceito-chave: pós-neoliberalismo. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar.

1. ° de Maio: silêncio ruidoso

Tenho para mim que é muito ruidoso o silêncio a vários níveis sobre o 1.° de Maio de próxima sexta-feira. Ou estou enganado?

28 abril 2009

Limpeza presidencial

Narrando a visita do presidente Armando Guebuza à província do Niassa, a jornalista Suizane Rafael do semanário "Magazine Independente" desta semana dedicou muito espaço, quatro colunas, com o entretítulo em epígrafe, a descrever como edifícios foram pintados, buracos tapados, estradas terraplanadas e lixo recolhido em Lichinga e Cuamba porque o presidente vinha visitar a província. Parágrafo final da peça: "Muitos residentes de Lichinga acham que os dirigentes só trabalham quando há uma visita presidencial, enquanto que ao resto do tempo passam folgados"(p. 22).
Comentário: pena os presidentes não chegarem de surpresa e cedo - cerca das 7:00 da manhã - , começando logo as visitas tsunami de trabalho, com itinerários por si escolhidos.

Fumo, o escolhido pelos defuntos

No Bairro de Hulene, periferia da cidade de Maputo, há um novo régulo, António José Cabral Fumo, 33 anos. A sua tomada de posse foi orientada pela vereadora municipal do distrito 4, Estrelinda Chaúque, que disse estarem os secretários de bairro "na segunda linha de governação, sendo que o régulo o principal". Emocionado, o régulo, que disse ter sido escolhido pelos defuntos familiares de entre seis irmãos, é formado em serralharia e electricidade e praticou atletismo no clube Matchedje ("Magazine Independente" de hoje, p. 22).

Azagaia

Cada mais conhecido dentro e fora do país, o rapper Azagaia - Edson da Luz de seu real nome - deu uma longa entrevista ao "O País", a conferir aqui. Creio que alguns ainda se lembram do quão atribulada foi a ascensão social do jovem cantor, com gente apostada em o destruir por completo a qualquer nível. Mesmo nos blogues, lembram-se? Já agora, recorde a entrevista que ele me deu em Novembro de 2007, aqui.

O rochedo de Dhlakama (5)

Mais um pouco da série.
O rochedo de Dhlakama é, sem dúvida, pesado, sísifico.
Internamente, Dhlakama e seu núcleo dirigente (creio que cada vez mais castrense e pré-1992 face à purga de intelectuais e de quadros-link) tem de fazer face a uma constante demanda de retribuições. Sem dúvida que deve haver quem milite num partido como quem milita numa igreja: por dedicação isenta de cargos e de salários. Mas é mais provável que um partido seja bem mais um corredor de aspirações, tão mais fortes quanto os recursos de vida e poder são escassos, mas apetecidos: cargos e benesses em assembleias municipais, na assembleia da República. Ora, os anos vão passando e quer os guerrilheiros, quer os militantes pós-1992, aguardam os prémios da mata e da dedicação.
Externamente, Dhlakama e seu núcleo dirigente têm de enfrentar uma bateria crescente, quase diária, de mísseis ideológicos dos partidos inimigos (Frelimo e os pequenos partidos acomodados, por exemplo os da "oposição construtiva"), de jornalistas críticos, de clérigos, de intelectuais, etc. Qualquer coisa que venha de Dhlakama, não importa o quê agora, é imediatamente inscrita em três estantes: a estante do militarismo (guardas acantonados em Marínguè, por exemplo), a estante da incoerência (a acusação da fraude, por exemplo) e a estante da violência (os promessas de desobediência civil, por exemplo).
E assim temos um núcleo dirigente a viver a dureza do duplo constrangimento: por um lado, a tentativa de escapar em permanência ao roteiro histórico da guerrilha através da modernidade política do partido e da frequência regular dos corredores urbanos da afirmação e da disputa política (assembleia da República, mídia, viagens, seminários); por outro, a exposição contante e crescente à crítica, seja vinda do partido no poder, seja vinda da antiga oposição (hoje completamente acomodada). A virulência da crítica destrói os ganhos da desguerrilhação progressiva. A ala dirigente da Renamo é um fac-símile daquele herói de um filme de Charlie Chaplin que, apanhado por uma tempestade de neve quando dormia na sua cabana, vê esta de repente na borda de um precipício. Ao acordar, quer sair. Mas se avança para o lado do precipício, a cabana tomba; se recua e pretende sair, a tempestade aguarda-o. O herói de Chaplin não pode nem habitar a cabana nem deixá-la.
(continua)

Trovoada social : Renamo e guardas-fronteira

A Renamo convocou hoje uma conferência de imprensa para, através do porta-voz Ossufo Omade, secretário-geral do partido, afirmar que a Frelimo está a preparar elementos da guarda-fronteira para assaltar residências de guardas da Renamo em Marínguè, Cheringoma e Gorongosa. Por isso, disse Ossufo, a Renamo ordenou já "medidas de contra-ataque". Muitas vítimas poderão surgir - assegurou. A Rádio Moçambique ouviu Edson Macuácua, porta-voz da Frelimo e secretário para a Mobilização e Propaganda desse partido, que disse que as afirmações de Ossufo eram totalmente falsas e constituíam uma incitação à violência e à desobediência, que a Renamo usava essa táctica em períodos eleitorais, que a Renamo devia "reconciliar-se com a lei" e "desarmar as mentes" (Rádio Moçambique, noticiário das 12:30).
Observação: em período eleitorais, a Renamo costuma ser acusada de movimentar os seus guardas, especialmente em Marínguè. Há dias, o "Magazine Independente" reportou que a Renamo preparava os seus guerrilheiros para responder à FIR. Agora o partido liderado por Afonso Dhlakama passa de acusado a acusador. Sem dúvida que, nas margens das eleições, estamos em período de trovoada social.

M'panda: o dilema

Pelo "O País", ficamos a saber que a barragem de M’panda M’kua será mesmo construída. Pelo "Canal de Moçcambique" ficamos a saber que um geofísico alerta para o risco de terramotos. No que me concerne, encontrei, em inglês, um texto com advertências feitas desde 2006 sobre os riscos da construção da barragem. Confira aqui. Finalmente, sugiro a releitura destas postagens aqui e aqui.

O que é democracia? (1)


Tendes aí uma pergunta completamente dramática, não é? Uma parte de nós gravita em torno da democracia eleitoral, uma parte de nós talvez faça dela, dessa democracia eleitoral, a democracia em si. Por outro lado, aqui, na internet, encontramos montes de respostas salutares e digestivas à pergunta. No que me concerne, como não sei o que é democracia, tentarei responder-lhe, naturalmente que de forma muito pouco ortodoxa. Vão aguardando, pode ser? E, já agora, vão pensando na pergunta e na resposta do perverso cartoon em epígrafe, nos muitos ditadores e nas muitas ditaduras que nos fazem habitar desde que nascemos.
(continua)

Não consigo entrar no blogue

Apenas através do meu celular e pela Mcel consegui entrar no blogger e escrever este aviso. Há mais de sete horas que não consigo entrar quer na minha página quer na edição de postagens através do meu computador. Melhor: não consigo entrar em nenhum blogue do blogger. Da mesma forma, nåo consigo editar comentários. Se puderem, digam-me vocês se conseguem entrar, usem o meu email. Obrigado.
Adenda às 8:17: com dificuldade, entrei agora. Certamente é o xipoko (fantasma) dos problemas anteriores...

27 abril 2009

Catástrofe social

Reportado pelo "O País": "Mais cinquenta e cinco a noventa milhões de pessoas serão atingidas pela pobreza extrema em 2009. O número de pessoas com fome crónica deverá aumentar para mais de mil milhões este ano" disse o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick."

Linchado à machadada em pleno dia

Acusado de roubo e de outros crimes, um indivíduo foi semana passada linchado à machadada, em pleno dia, no Bairro Luís Cabral, periferia da cidade de Maputo. Confira aqui. Recordo que este é um bairro propício aos linchamentos, confira aqui, aqui e aqui.

Facciosismo flagrante!

Com um facciosismo flagrante, o "Notícias" de hoje, primeiro em lead, depois pela escrita do jornalista Alexandre Zandamela, entendeu que neste país o Costa do Sol merecia estes celestiais títulos pela sua magra vitória sobre a Liga Muçulmana por 2/1 no Moçambola: "Bem haja, Costa do Sol!" e "Sol brilhante, vivo e fantástico". Qual a razão de tão flagrante apadrinhamento, de tão inusitado endeusamento (leia-se com atenção toda a sorvetal escrita)? Não teve sol a vitória da Hidroeléctrica de Cabora Bassa sobre o Maxaquene, jogando no campo deste último clube, aqui em Maputo? Não teve sol a vitória do Ferroviário da Beira sobre o Desportivo por 1/0, jogando, ele também, no campo desta última equipa, aqui em Maputo?

26 abril 2009

O cálice envenenado de Zuma

O mandato do futuro presidente sul-africano, Jacob Zuma, é um cálice envenado. Saiba por quê lendo a argumentação de William Gumede (na imagem à esquerda), aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.

Hi5: nova vereda política no país

Ao fazer a minha habitual ronda pelos portais dos partidos políticos do país, verifiquei que o presidente do Movimento Democrático de Moçambique, Deviz Simango, figura agora no Hi5, em local bem frequentado e comentado. Este é um outro passo na modernidade política digital do nosso país. Confira aqui.

Censo 2007

Os resultados preliminares do censo populacional realizado em 2007 encontram-se já disponíveis no portal do Instituto Nacional de Estatística. Mas são definitivos os dados para Maputo cidade, Maputo província e Gaza. Confira aqui.

Jacob, o "zulu"


Tem sido frequente na imprensa internacional salientar a natureza zulu do futuro presidente sul-africano Jacob Zuma. Entre nós, pela pena do jornalista José Sixpence, o semanário "Domingo" de hoje não ficou atrás, como o recorte da imagem em epígrafe ilustra (p. 12). Colando ao zulu o estatuto de polígamo, obtém-se um quadro ainda mais folclórico, como aqui. Já agora, recorde aqui e aqui.

25 abril 2009

Aforismos

Francamente! Vejam lá que não aforismava desde 10 de Novembro do ano passado! Que desaforo, que desatino!
Mas vamos lá retomar o fôlego, com a perversidade habitual.
1. Uma coisa óbvia: apenas os partidos fracos precisam de coligações, podendo, aqui e acolá, oferecer, em troca, os préstimos de alguns intelectuais e de alguns técnicos de médio curso.
2. Quando mais seguro um partido se sente, mais ele olha os outros com sobranceria.
3. Sempre que surge um novo partido, os partidos hegemónicos ignoram-no; mas se o novo partido apresenta indicadores de futura hegemonia, imediatamente os partidos hegemónicos o apresentam revestido de características integralmente patológicas.
4. Se o inimigo político é mesmo perigoso, assenta-se sobre ele um bateria de projectores midiáticos destinados a iluminar a sua acreditada malevolência e a sua natureza virtualmente psiquiátrica.
5. Em situações de luta política intensa, os partidos despacham para o terreno de combate - mídia - os seus mais treinados especialistas da verborreia e dos mísseis ideológicos.

25 de Abril

Comemora-se hoje mais um aniversário da revolução dos cravos ocorrida em Portugal a 25 de Abril de 1974. Saiba aqui, veja aqui e recorde aqui a canção do falecido cantor e compositor Zeca Afonso (leccionou muitos anos em Moçambique, em particular na cidade da Beira, no ex-Liceu Pero de Anaia, hoje Escola Secundária Samora Machel, onde também fui professor em 1974/1975) que serviu de senha para o início da revolução que levou à queda da ditadura em Portugal e constituiu um passo importante para a independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975.
Adenda 1: creio que foi em Maio de 1974 que, com outros colegas jornalistas, viajando na então DETA (hoje LAM), visitei Dar es Salaam e aí, no Instituto Moçambicano, conheci Samora Machel. Lembro-me, também, de ter visto Marcelino dos Santos e Sérgio Vieira.
Adenda 2: o leitor Gouvêa Lemos, também autor de um blogue, sugeriu-me que soubessemos de uma entrevista dada a uma rádio pelo advogado Adrião Rodrigues (viveu muitos anos na então Lourenço Marques, hoje Maputo) a propósito do 25 de Abril. Confira aqui.

Também no Twitter e no MySpace

Além de uma conta aberta há dias no Twitter, tenho agora, também, uma conta no MySpace (inclui um blogue). Dois espaços para multiplicar o contacto, igualmente linkáveis junto ao local de recados situado no lado direito deste diário. Visitem-me, interajam comigo. Obrigado e abraço!

ANC vence com maioria absoluta?


O ANC, partido no poder, parece ter obtido a maioria absoluta nas eleições sul-africanas, arrecadando dois terços (66%) dos quase 23 milhões de votos (quando estavam apuradas esta madrugada 99% das cédulas), com vitória garantida em oito das nove províncias do país. O candidato Jacob Zuma deverá ser o novo presidente do país quando o parlamento se reunir. O segundo partido mais votado foi a Aliança Democrática com 16% (virtual vencedora na província do Cabo Oriental) e o terceiro foi o PODE, com 7%. Confira aqui e aqui. Sobre as repercurssões da vitória de Zuma no Zimbabwe, leia aqui.
Adenda às 19:44: pelos resultados oficias, o ANC obteve 65,9% (e oito províncias das nove do país), não o suficiente para obter a maioria absoluta e, portanto, a possibilidade de mudar a constituição. A Aliança Democrática obteve 16,66% e a província do Cabo Oriental. O Congresso do Povo, formado com dissidentes do ANC, obteve 7,42%, resultado interessante dado o facto de o partido ser muito recente - fontes: João de Sousa na África do Sul através da Rádio Moçambique (noticiário das 19:30) e o Guardian aqui.
Adenda a 26/04/09, 10:58: de um leitor identificado recebo um email com o seguinte conteúdo: "Carlos, Você comete, no post sobre as eleições sul-africanas um erro muito comum entre nós. Na verdade o ANC venceu com maioria absoluta mas sem os 2/3. As maiorias possíveis são a Maioria Relativa (o candidato com maior percentagem mas sem chegar aos 50%), Maioria Absoluta (o candidato que obtiver mais de 50%) e Maioria Qualificada (que podem ser os 2/3, os 3/4 ou outras maiorias definidas)." Muito obrigado pela correcção.

A incógnita de Maúa

Segundo o "Notícias" de hoje, os habitantes do distrito de Maúa, província do Niassa, têem abandonado os seus povoados emigrando para outras terras, deixando para trás fontes de abastecimento de água. O que leva esses habitantes a deixar Maúa? Procura de terras mais férteis? Confira aqui.

24 abril 2009

Pensamento essencialista

"O pensamento essencialista define-se por duas características: atribui a todos os membros de um grupo social, étnico, histórico ou racial, atributos que podem, com efeito, encontrar-se, mais ou menos frequentemente, entre os membros desse grupo; explica esses atributos pela natureza do grupo e não pela situação social ou pelas condições de vida. Quando o grupo é havido por bom, os traços favoráveis passam por características; quando o grupo é havido por mau, só os traços desfavoráveis contam. Os indivíduos isentos do desprezo que é dado à sua comunidade são considerados excepções, atípicos." - Aron, Raymond, Les désillusions du progrès. Paris: Calmann-Lévy, 1969, p. 86.

O rochedo de Dhlakama (4)

Vamos lá avançar mais um pouco nesta atrasada série.
O que se passou desde que aqui postei o último número?
Passaram-se três coisas: primeiro, formou-se o MDM depois que Dhlakama e os seus generais decidiram que Deviz Simango estava a mais na Renamo; segundo, uma parte dos intelectuais modernos da Renamo criticou a posição tomada e/ou abandonou o partido; terceiro, Dhlakama decidiu fixar residência política em Nampula.
O que isso quer dizer? Isso quer dizer, por hipótese, três coisas também: primeiro, a Renamo despovoou-se de parte do seu núcleo pensante mais moderno, do núcleo neuronal anti-AKM, tendo eventualmente regressado ao tipo de militantes duros, castrenses, dos anos 90; segundo, a Renamo viu fugir-lhe militantes do tipo gramsciano "homens comuns," numa cisão politicamente desfavorável daqui em diante; terceiro, Dhlakama decidiu contrariar a sangria em cima - originada, entre outros factores, pelo descalabro político na Beira, com a aposta em Manuel Pereira - investindo num demorado movimento de aproximação por baixo, pelo campo, pelas províncias mais desfavorecidas.
(continua)

Desjatrophadores em Inhambane

Sugestão: talvez não fosse má ideia pedir conselho neste delicado campo ao bem-amado Homo Sibindycus, pai fundador da oposição construtiva, que em 2007 apresentou-se interessado em fazer cultivar jatropha em 20 mil hectares no Monapo.

A "hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual vos dou, desde já, quatro aperitivos:
* O delegado no matutino da Joaquim Lapa estava como delegado da frel na reunião de quadros e escreveu reportagens na edição da 2ª. feira, 20 de Abril, na pagina 4, com o título “A vitória prepara-se, a vitória organiza-se”. Há quem insiste em falar de ética e deontologia profissional na classe.
* A reunião académica do instituto do economista da outra frel, trouxe “papers” quentes sobre distribuição da riqueza e o estafado combate à pobreza. Com tanta desconfiança, a universidade estatal acabou por dar “cartão vermelho” ao professor Issa Shivji da Universidade de Dar-Es-Salaam, o tal que o ano passado pôs em causa o prémio Mo Ibrahim ao nosso ex.
* Repórteres da rádio pública deviam ser submetidos a um exercício de fisioterapia no braço de tanto esticarem o microfone para o papagaio mor da frel.
* O homem, de tanto falar, perde uma oportunidade de estar calado. Mais uma vez acusou o puto Daviz e o seu MDM de falta de patriotismo por ter ido à Europa. No arquivo da Pereira do Lago poderá consultar as várias viagens feitas pelo presidente da frel em 1975, nos meses que antecederam a independência de Moçambique. Será que foi em gozo de férias?

Nada fácil

Não, agora não é mesmo nada fácil candidatar-se a presidente da República no nosso país: entre hoje e o dia 29 de Julho, os candidatos têm de cumprir com 11 exigências, entre as quais "um mínimo de dez mil e um máximo de vinte mil assinaturas de apoio reconhecidas por Notário" e um "Comprovativo de depósito de caução de cem mil meticais (cerca de 2800 dólares ao câmbio de 1 USD=26 Mt, C.S.) no Banco de Moçambique". Confira aqui.
Comentário: imagino a correria, a cautela e a atenção que os assistentes dos candidatos terão para, durante cerca de três meses, cumprirem com a lei.

Sérgio Chichava do IESE


Inserto no "O País" de hoje, p. 16. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar. Sobre o IESE, confira aqui.

Azagaia responde a leitores e admiradores


Na cotonet records, o rapper Azagaia - Edson da Luz de seu real nome - responde a perguntas, primeira parte de um trabalho. Eis um extracto, estando a azul um comentário/pergunta e a verde a resposta do músico:
"24 - Aqui um comentário e talvez uma pergunta ao Azagaia, de parte de um branco não europeu estrangeiro das terras do sul de América... e não sou brasileiro... vivi uma ditadura e lutei contra ela, convencido na importância de contribuir a um objectivo comum... agora que os fariseus que supostamente comandavam a minha luta e a de muitos dos meus irmãos que hoje não fazem outra coisa que cheirar, se tornaram ricos com a utopia rebelde, agora que tu mesmo estas correndo risco de te tornar nisso que criticas (pelo que dizem os comentários anteriores e de alguma maneira alimentam minhas duvidas), agora que muitos e muitas invejam tua poesia herege e coragem apenas comparavel aos madjermane... apenas quero saber se para ti vale a pena... tanta magoa e raiva suportada, tanto esforço sem espera, tantos mortos... vais chegar ao final?
Serei breve. Muitos de nós somos enganados por doutrinas... pelos “ismos”. Socialismo, Comunismo, Liberalismo, e.t.c. Mas eu defendo que essas doutrinas têm como fim último a manutenção do poder dos que estão por trás delas. Hoje a democracia também. O melhor que temos a fazer, é sermos nós próprios, lutarmos pelo nosso bem-estar e dos nossos, sem prejudicar a quem não nos prejudica. Não me verás a afirmar que as pessoas devem seguir esta ou aquela doutrina. Com todo o respeito, penso que caiste nessa armadilha e agora é só desilusão. Vale a pena sim, lutar e inspirar, mas não tentar fazer de mim um deus infalível. Eu sou um ser humano."

23 abril 2009

Zimbabwe: tentando salvar o governo inclusivo


Terceiro encontro hoje entre os líderes políticos zimbabweanos para resolverem as contradições no governo inclusivo. Confira aqui, aqui e aqui. Cartoon de Zapiro reproduzido daqui. Portal oficial de Zapiro, aqui.

Duas descrições brasileiras de Jacob Zuma


Lá, no imenso Brasil, com seu jeitinho leve e irónico de escrever - eventualmente controverso para o nosso jeitinho -, dois jornalistas brasileiros traçaram o ratrato do próximo presidente sul-africano, Jacob Zuma: guerreiro zulu aqui e populista duas caras fiel à África tradicional aqui. Imagem reproduzida daqui.

Serviços básicos: venda e lucro em África

No portal da @verdade: "Os serviços básicos que devem ser providenciados pelo Estado em benefício do cidadão passaram a ser produtos de venda e lucro para os governantes e líderes dos países africanos, incluíndo Moçambique. A constatação é do professor Issa Shivji (na imagem, C.S.), especialista em estudos Pan- Africanos na Universidade de Dar- Es-Salaam, República Unida da Tanzânia, durante a segunda conferência do Instituto dos Estúdios Sociais e Económicos, sobre o tema “Dinâmica da pobreza e padrões de acumulação económica em Moçambique”.

Pugilismo ideológico

Amo ouvir os debates da Assembleia da República através da Rádio Moçambique - excepcional laboratório para estudo dos discursos feitos pelas cabeças pensantes dos nosso deputados -, mas, infelizmente, nem sempre tenho tempo para isso. Todavia, hoje, aqui no meu gabinete universitário, tive esse esse prazer. E, uma vez mais, apercebi-me de quantas coisas importantes, vitais, merecedoras de debate sério e de pesquisa aprofundada, são completamente deixadas ao sabor da emoção política e do recíproco ataque imediato, com Frelimo e Renamo apenas interessadas no belicismo verbal, no papagaísmo ideológico e no auto-reverencialismo sem fim. Porque prisioneiros dos seus partidos em dura luta, os deputados perdem por completo a lucidez crítica e a independência pensante, atolando-se por inteiro na disciplina partidária acrítica e seguidista. O problema central deixa de ser o fenómeno A ou B, mas o facto de o partido A ou B ser o nosso inimigo. A Frelimo apresenta um relatório ou uma proposta: logo a Renamo tem ambos por aleivosos porque produto de um comunismo estrutural e malévolo; a Renamo faz uma crítica que devia ser analisada: logo a Frelimo defende que a proposta é produto do anti-nacionalismo e do terrorismo imutável da Renamo. Cada um dos partidos acusa o outro de violência no preciso momento em que está a ser inequivocamente violento. No meu livro "Combates pela mentalidade sociológica" (1997) escrevi um pouco sobre isso, sobre essa cegueira nacional produzida pelo pugilismo partidário. Fenómeno sociológico fascinante, fenómeno social doloroso.

O mais intenso ano político da Frelimo desde 1994

Ano Eduardo Mondlane, reunião de quadros do partido Frelimo, sessão do comité central do partido e, hoje, reunião dos combatentes da luta de libertação nacional: é simplesmente impressionante o peso informacional permanente que isso teve e está a ter, a cada momento, na TVM e na RM e, mesmo, em inúmeros outros canais de informação. Por exemplo, aqueles dois órgãos interromperam esta manhã a transmissão que faziam da sessão da Assembleia da República (discussão do informe do procurador-geral da República) para, de forma prolongada, reportarem a reunião dos combatentes que se realiza na Escola Central do partido Frelimo na Matola. Ao mesmo tempo, é agora sistemático o apelo feito por militantes séniores da Frelimo por um lado a uma vitória esmagadora (sic) nas eleições presidenciais, parlamentares e provinciais deste ano e, por outro, à "vigilância" (sic) no tocante aos perturbadores da unidade nacional e da ordem social. Creio que 2009 é, desde 1994, o mais intenso ano político da Frelimo em termos de propaganda, a ideia parece ser a de eliminar esmagadoramente a oposição "não construtiva", pô-la fora de acção por exemplo no parlamento, no preciso momento em que o partido defende, sem pausa, a unidade e a pluralidade.