O blogue "Diário de um sociólogo" foi seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas aquelas e todos aqueles que visitarem este diário, os meus votos de um 2017 habitado pelo futuro, pela confiança, pela tranquilidade e pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre a este espaço criado a 18 de Abril de 2006. Abraço índico.
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31 janeiro 2009

Dambisa Moyo: cortar ajuda a África...


Chama-se Dambisa Moyo e tem um livro (Dead Aid) com uma tese politicamente incorrecta: é preciso cortar a ajuda a África. A ajuda apenas piora a vida dos Africanos, ainda que favoreça as élites governantes. Leia aqui o resumo da tese dessa economista zambiana - educada em Harvard e Oxford - e um comentário crítico de Paul Collier.
Adenda às 9:45 de 01/01/09: os leitores deste diário sabem que não é a primeira vez que essa posição aqui surge. Recordem, por exemplo, o engenheiro moçambicano Noé Nhantumbo aqui e o economista queniano James Shikwati aqui.

Zimbabwe: os riscos do GUE (2)

Mais um pouco, mesmo pouco por agora, desta série.
Quando analisamos a situação política no Zimbabwe, é sempre muito difícil situarmo-nos nas relações sociais internas, na luta entre dominantes e dominados. Os externalizadores da terra (recorde aqui e aqui) amam eliminar isso com o seu terceiro-mundismo reluzente, ancorando nos farmeiros brancos e no Ocidente a vilania do Grande Mal zimbabweano. Por essa razão e na análise individual, Robert Mugabe é inevitavelmente rodeado das sacrossantas virtudes do libertador, incólume ao dia-a-dia das relações sociais, puro em seus ideais e na sua retórica anti-imperialista, cavaleiro andante da justiça.
Se quisermos pensar no futuro do Zimbabwe, julgo ser pertinente pensarmos nas citadas relações sociais. E relações sociais não são feitas com pessoas, mas com grupos sociais, grupos sociais em conflito.
Três perguntas para reflexão:
1. Até que ponto, num acordo que é nitidamente favorável à ZANU-PF e a Mugabe, a élite do MDC-T não se tornartá uma aliada - menor que seja -, nos proventos e no prebendialismo da gestão política do Zimbabwe?
2. Até que ponto é que o futuro governo será, efectivamente, um governo ao serviço do povo, da justiça social, um governo estrangeiro ao governo de unidade elitária?
2. Até que ponto é que, sem se aperceber - se embarcar num real GUE -, a élite concorrente do MDC-T não será poderá ser, a médio prazo, o ariete estratégico da ZANU-PF no sentido de que será literalmente lançada para o terreno por forma a que, queimando-se governamentalmente, poupe e recicle politicamente a ZANU-PF em próximas eleições, terminando, assim, com um cheque-mate, a aliança temporária neste governo de transição?
Por agora fico-me por aqui.
(continua)

Conselhos pré-sociológicos para candidatos a sociólogos (3)

Bem, faz tempo que eu não prosseguia a série com o título em epígrafe. Perversa distracção a minha!
Sabem, o Ricardo, meu correspondente em Paris, enviou-me hoje a referência de um portal que conta terem dois sociólogos estudado as percepções de 50 participantes de uma greve ocorrida quinta-feira em Paris. A conclusão é simples na sua banalidade:
os franceses em geral e as "classes médias" em particular receiam ficar pobres, receiam perder os seus empregos, a sua estabilidade (se não sabem francês, façam uso do tradutor situado no lado direito deste diário).
Mas não é a conclusão dos dois sociólogos que me aqui me interessa. É o facto de eles se terem metido no meio de uma multidão para saberem o que certas pessoas pensam do que se está a passar em França.
E aqui está o ponto central: a necessidade de pesquisa constante e multiforme, a necessidade de mergulharmos na empiria a cada momento, de despirmos a roupa das nossas puras ideias, de as sujeitarmos ao crivo do social.
Porque há sempre o risco de confundirmos as nossas sagradas e puras ideias com a realidade social. E de termos por pesquisado o que nunca pesquisámos nem pesquisaremos.
(continua)

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (5)

Mais um pouco da série.
Temos, então, três fenómenos:
1. A crença de que o Estado prende a chuva no céu.
2. A crença de que alguém com enormes seringas chupa de noite o sangue dos desprotegidos.
3. A crença de que certo tipo de pessoas controlam magicamente os leões.
Poderia multiplicar os exemplos, mas bastam-me, por agora, esses.
Estamos perante crenças com morfologias diferentes, sem dúvida. E crenças que parecem não fazer sentido sob o prima das mentes severamente cartesianas.
Porém, pode acontecer que exista uma mesma lógica à sua retaguarda, um mesmo fim condutor. E pode acontecer que as crenças façam sentido para quem as tem.
(continua)

Zimbabwe: os riscos do GUE (1)

Tudo leva a crer que a 11 de Fevereiro estará formado o governo inclusivo, o governo de unidade nacional, no Zimbabwe. Talvez não fosse má ideia escrever um pouco sobre o futuro do país. E, especialmente, colocar-me e colocar-vos esta pergunta: e se o GUN se transforma num GUE, num governo de unidade elitária?
(continua)

Sida e curandeiros em Moçambique

De um portal brasileiro: "A epidemia da Aids se transformou em uma fonte de lucro para os curandeiros de Moçambique, que prometem recuperar a saúde dos doentes desesperados." Confira aqui. Sobre o curandeiro citado pelo trabalho, recorde esta minha postagem aqui. E se quer ver mais postagens com o tema do cura-tudo, basta escrever essa expressão no "pesquisar no blogue" (canto superior esquerdo do diário).
Adenda: sugiro-vos que leiam uma bela e docemente irónica crónica do jornalista Fernando Manuel, inserta no "Savana" desta semana, para que saibam como, por causa da opinião de um curandeiro, ele perdeu a sua primeira namorada. Aqui. Obrigado ao AM por me ter recordado a crónica.

Estado em Cabo Delgado descrito por Nacuo

O jornalista Pedro Nacuo produziu um retrato do Estado em Cabo Delgado. Eis um pequeno extracto: (...) essa tendência cada vez mais eloquente de que o nosso Estado, aqui, vive de esquemas, sobrevive da violação das suas próprias leis. É Estado mesmo? Somos induzidos a assim pensar, quando na verdade, as violações vestem-se de premeditação e terminam no mesmo ponto em que começam, nomeadamente, não cumprir as leis que ele próprio aprovou e mentiu que impunha a tudo e todos vivendo ou tendo relações com este território nacional."

Cartoon: Mugabe encontra-se com Obama


Confira aqui. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar.

Preceitos linchatórios na Maná e na IURD

Trabalhava esta manhã um pouco sobre linchamentos e sobre a mentalidade linchatória em Moçambique quando decidi investigar se a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) - muito procurada em Maputo pelo povo e pelos governantes - também tem preceitos como aqueles da Maná. Sim, também tem, exactamente também 16 e o seu conteúdo pouco difere daqueles que fazem parte da Maná. E lá estão os dízimos em prol de Deus por parte dos cristãos com direito à "vida abundante" (preceitos 11° e 14.°) e, claro, a severa punição no 16.° com o lago cheio de fogo e enxofre para os malandros, apenas com pequenas variações na formulação (o preceito da Maná é mais duro):
"16 – O objetivo final de um relacionamento permanente com o Senhor Jesus pela fé é a vida eterna, a qual Ele prometeu a todos os que perseveram até o fim. “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.” ( Apocalipse 21.8)".
Adenda 1: é para mim fascinante verificar como se enxerta o terror na fé.
Adenda 2 às 10:06: não tenho qualquer ideia, por ora, de mapear a mentalidade linchatória nas religiões. Apenas usei a Maná e a IURD como pequenos exemplos. Mas podereis estudar um pouco a estrutura das punições no Alcorão (nas quais também entra o inferno eterno), aqui.

30 janeiro 2009

Maná: prosperidade e punição

Amo estudar tudo aquilo que seja um produto organizado destinado a dar fé, a criar uma identidade, a gerir uma esperança, a produzir um crença sistemática e sem reservas. Amo especialmente estudar as igrejas evangélico-salvacionistas - fenómeno cada vez mais possante no mundo - com o seu poderoso arsenal de promessas fantásticas e de milagres espantosos. E amo, sem dúvida, estudar o que se propõe e o que se pune em nome da Bíblia. A Igreja do Maná (de Jorge Tadeu, seu fundador e presidente), concorrente da Igreja Universal do Reino de Deus (de Edir Macedo), tem, na sua manifestação de fé, 16 convicções (sic), constantes do seu portal em Moçambique. Achei interessante salientar duas, uma que fala da prosperidade material (este é um campo excelente para pesquisa, a busca incessante de dízimos) e outra que anuncia uma punição excepcionalmente severa (a qual não é, certamente, mais suave do que aquela que os linchadores do país impõem à suas vítimas, sovando-as ou queimando-as), salientando a vermelho passagens que considero significativas:
"8 - PROSPERIDADE MATERIAL: No Calvário, Jesus foi em tudo o nosso substituto. Ele se fez pobre para que em troca podessemos ser prosperos. Cremos e praticamos as Leis de Prosperidade que consiste em honrar a Deus com os Dizimos e Ofertas. (Ml.3:1-12; 2Co.8:9; Pv.3:9,10; Lc.6:38; 2Co.9:6-11)".
"16 - JUÍZO FINAL E RECOMPENSA ETERNA: Aqueles que morreram fisicamente em seus pecados sem aceitar Jesus, serão julgados pelas suas obras más, e condenados no lago de fogo e enxofre junto com o diabo e os seus demónios, o anticristo e o falso profeta. Não haverá mais oportunidade de voltarem a ouvir o Evangelho para arrependimento. Este castigo é eterno, assim como a recompensa dos Justos na presença de Deus num extase de paz e alegria. (Hb.9:27; Ap.19:20; Ap.20:11-15; Ap.21:8; Ap.21:1-4; 2Co.5:10; Mt.25:31-46)".
Adenda 1: seria interessante estudar um dia, no nosso país, o conjunto reactivo multilateral dos crentes dessa e de outra igrejas. Já tentei um pouco isso com a IURD.
Adenda 2 às 21:57: não menos interessante seria estudar a produção, quase em massa, de micro-igrejas no país em geral e em Maputo em particular.

Presidente do Senegal oferece asilo a Mugabe


Líderes africanos fizeram hoje novos apelos ao presidente Mugabe (na imagem) para deixar o poder, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, oferece-lhe asilo, a crise no Zimbabwe dominou hoje o debate sobre África no fórum Davos. Confira aqui.
Adenda 1: o Zimbabwe e Mugabe vão ainda dar muito que falar.
Adenda 2 às 22:01: o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano parece céptico em relação ao governo inclusivo do Zimbabwe. Confira aqui.
Adenda 3 às 23:03: talvez venha a escrever sobre o risco de transformação do governo de unidade nacional em governo de unidade elitária.

Jestina Mukoko


A proeminente activista direitos humanos do Zimbawe, Jestina Mukoko - frequentemente referida neste diário -, continua detida e não há notícias sobre ela nos últimos dias. Uma das mais recentes data de 15 do corrente mês. Ela e outros detidos contaram como foram torturados. Confira aqui.

Bernard Njonga


Chama-se Bernard Njonga (na imagem), 55 anos, proeminente líder sindical camponês dos Camarões. Ele e os colegas aprenderam como a ajuda indiana ao país e aos camponeses foi desviada para a élite no poder, como, por exemplo, isso sucedeu no tocante aos tractores. Agora é perseguido por ter denunciado a corrupção. Leia aqui um texto em francês, no Libération. Se não sabe francês, use o tradutor situado no lado direito deste diário. Foto reproduzida daqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, por me ter feito chegar a referência.

Zimbabwe: MDC-T vai participar no GUN

O MDC-T irá fazer parte do governo de unidade nacional no Zimbabwe - assegurou Morgan Tsvangirai. Confira aqui na BBC.
Sugestão: siga mais notícias do Zimbabwe aqui e aqui.
Adenda: penso na possibilidade de ainda hoje comentar o que pode significar o GUN.

Eduardo Mondlane

Do editorial do semanário "Savana" desta semana, dedicado a Eduardo Mondlane, de quem o jornal diz não ser apenas nosso herói, mas herói de todos os povos: "Terça-Feira próxima, dia 3 de Fevereiro, é dia de Eduardo Mondlane, neste ano que também é dedicado a Eduardo Mondlane. Trata-se da data em que no já lá ido ano de 1969, em Dar-e-Salaam, uma bomba escondida num livro explodiu nas suas mãos, matando-o instantaneamente. (...) Uma das formas mais sublimes de prestar homenagem a Mondlane é não aceitar sermos engolidos pelos mesmos vícios que o colonialismo contra o qual ele lutou representava. Isso significa combater tenazmente a corrupção, a acumulação ilícita de riqueza, a insensibilidade perante as necessidades do povo."

As andorinhas de Paulina

A propósito de "As andorinhas", novo romance de Paulina Chiziane (minha escritora predilecta, na imagem), a autora contou o seguinte: "(...) certa vez, Ngungunhana ordenou silêncio e umas pequenas criaturas - as andorinhas - perturbaram, do cimo de uma árvore, o seu descanso. Uma delas defecou lá de cima para a cabeça do rei. Na fúria que lhe era característica, o imperador chamou os seus homens e ordenou-os a caçarem todas as andorinhas. O resultado dessa determinação é que eles saíram à caça das andorinhas, porque o rei as queria vivas junto de si para as castigar. Pelo caminho, acabaram por se confrontar com os portugueses. O fim é o que todos sabemos: o império chegou ao fim, o imperador foi preso e o seu poder acabou - por causa de uma andorinha."

Bispos acusam Mugabe de genocídio passivo e pedem sua demissão

"Os bispos católicos da África austral pediram (...) ao presidente zimbabweano Robert Mugabe para se demitir e apelam os dirigentes da região a cessarem todo apoio a um governo responsável a seus olhos de um "genocídio passivo". O Zimbabwe passou do estado de crise a de desastre para chegar a um genocídio passivo", declarou o arcebispo de Joanesburgo Buti Tlhagale (na imagem, CS) após uma reunião da Conferência episcopal da África Austral em Pretória." Confira aqui. No tocante ao imensis confira aqui; no "O País" de hoje, leia a p. 20.
Observação: só faltará agora aos fiéis defensores do regime de Harare acusarem os bispos de estarem ao serviço do imperialismo e de nada saberem das coisas de Deus por terras do Mwenemutapwa.
Adenda às 16:50: professores também querem Mugabe fora do governo. Confira aqui.

A "hora do fecho" no "Savana"

Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "A hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Deliciem-se com "A hora do fecho" desta semana, da qual vos dou, desde já, dois aperitivos:

Tou pidir

Tou pidir favor: alguém me ensina a colocar links nos comentários? Muito obrigado.

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (4)

Mais um pouco da série.
No número anterior, abri uma picada e fui parar ao chupa-sangue, fenómeno que estudei há uns anos atrás e do qual podeis encontrar uma pequena tentativa de análise aqui.
Mas qual a relação entre a acusação referida e o chupa-sangue?
Antes de responder, permitam-me complicar um pouco mais o cenário e abrir mais uma picada, recordando um pouco a história dos leões de Muidumbe (programa "Questão de fundo”, Rádio Moçambique, 29/11/2003, 20 horas, 41 minutos de duração, autoria de Óscar Libombo).
Foi assim: na província de Cabo Delgado, distrito de Muidumbe, 18 pessoas foram linchadas entre Junho de 2002 e Maio de 2003, acusadas de comandarem magicamente sete leões que comeram 46 habitantes. Todavia, os principais acusados de comandarem os leões à distância eram pessoas bem distintas: o administrador distrital, os régulos, membros do partido no poder, um comerciante, etc.
(continua)

Zimbabwe: orçamento em moeda estrangeira

Pela primeira desde a independência, o governo do Zimbabwe libertou um orçamento com base na moeda estrangeira. Confira aqui.

O que faltou

Escreve o "Notícias" de hoje que "A Polícia da República de Moçambique (PRM) ainda não encontrou matéria suficiente para concluir a existência de uma ligação entre os assassinos de um guarda do complexo açucareiro da Maragra, na Manhiça, em Maputo, e os bandidos que arrombaram o arsenal da unidade da corporação no local e roubaram seis armas na noite do último sábado." Faltou, apenas, comentar a razão ou as razões por que a esquadra estava deserta quando os meliantes lá foram roubar as seis armas.

Linguagem do "Notícias"

Eis um notável exemplo de como o "Notícias" trata a oposição política do país e do orgiástico prazer que sente pelo que entende estar a passar-se, indo a vermelho os termos mais castrenses e mais desqualificantes: "Queixas e reclamações. Lamúrias. Tal é o cenário que caracteriza hoje os partidos políticos da oposição em Moçambique. Tudo porque a sua participação nas eleições autárquicas de 19 de Novembro foi um autêntico descalabro. Um pesadelo. Foram esmagados e espezinhados tanto na corrida à presidência dos 43 municípios como na concorrência às assembleias locais, para a total decepção dos seus correligionários. O que se segue a essa pesada e indigesta derrota são as deserções massivas dos seus membros, que se filiam maioritariamente ao partido no poder, o sumiço dos seus dirigentes o que faz antever as “exéquias” de algumas destas organizações políticas.
Observação: com regularidade, o "Notícias" acusa certa oposição de violência verbal. Falta analisar que tipo de reacções provoca a linguagem do "Notícias", especialmente o seu profundo desprezo pelos outros, a forma como esmaga e espezinha o pensamento político diferente.

29 janeiro 2009

Zimbabweanos autorizados a usar moeda estrangeira

Segundo a BBC, os Zimbabweanos serão autorizados a usar outras moedas, além do dólar zimbabweano. O anúncio foi feito pelo ministro interino das Finanças do Zimbabwe. Confira aqui.

Aos meus queridos conterrâneos de Tete


Fui hoje convidado a fazer a história de Tete, por ocasião do 50.° aniversário a 21 de Março dessa nossa e minha bela cidade, onde nasci.
Sim, sou filho da terra e com muito orgulho. Mas escrever a história da cidade em tão pouco tempo ultrapassa a minha capacidade de resposta, até porque estarei ausente do país durante algum tempo em Fevereiro.
Mas escutem: sou, apesar disso, capaz de fazer uma palestra sobre Mitete, desde que nasceu em 1530, como feitoria. Convidem-me a ir lá...

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (3) (o chupa-sangue)

Prossigo mais um pouco esta série.
Deixem-me abrir um caminho vicinal, uma picada.
Creio que em 1997, estive algum tempo em Quelimane, em mais uma estadia de trabalho, numa província que conheço relativamente bem.
Convidado para almoçar em casa de um jovem professor do ensino básico, lá fui, Bairro Fajardo, periferia de Quelimane, cheio de intensa e numerosa vida. Ali estive muitas horas, comendo galinha assada em bom carvão pela esposa do professor, bebendo sura, sentindo a vida indagadora, sabendo que estava ser estudado pelo povo que, das redondezas, vinha saber quem era aquele branco de grande bigode e fumando cachimbo que estava ali em casa do professor.
Eu tinha o pressuposto de que seria havido como padre, pois na Zambézia ter bigode e barba equivale a ser padre. Nos anos 80, por exemplo, eu fui, para vários, o padre Sera, vindo do Vaticano. Claro que quando me perguntaram se já tinha regressado do Vaticano, respondi que sim. Por que haveria de contrariar a ânsia local, a de ser mais um padre regressado de férias do Vaticano, com o figurino histórico habitual, barba e bigode e branco?
Mas deixemos isso. Então lá estive em casa do jovem professor e da sua solícita esposa. Ao fim da tarde regressei ao Hotel Chuabo. No dia seguinte, eram, creio, sete horas, o jovem professor bateu fortemente na porta do meu quarto, quinto andar, ala direita. Abri a porta estremunhado, o que se passa? Professor Sera, está tudo bem, nada aconteceu. Mas...deveria acontecer o quê, perguntei aflito? Bem, se tivesse morrido alguém ontem no bairro, o professor Sera seria acusado de ser chupa-sangue e eu também - angustiou o jovem professor zambeziano. Por isso - asseverou - logo de manhã cedo eu fui saber se tinha morrido alguém. Ninguém morreu!
(continua)

Generais

O "Savana" desta semana apresenta Ossufo Momade, secretário-geral da Renamo, a dizer que os pronunciamentos de Maria Moreno e de Eduardo Namburete não vão alterar a posição da liderança da Renamo e que o seu partido "vai mesmo fazer empossamentos paralelos" (p. 2).
Observação: aqui está a posição de mais um general da Renamo, grudada à posição do general- chefe, Afonso Dhlakama.

OMM e OEM contra curricula da UEM

O ano passado, na voz do bastonário Aurélio Zilhão, ex-ministro da Saúde, a Ordem dos Médicos de Moçambique ameaçou não reconhecer os graduados saídos da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane. Na altura, o bastonário queixou-se de que a ordem não foi consultada antes da aprovação do novo currículo. Agora é a vez da Ordem dos Engenheiros não concordar com o novo currículo de formação de engenheiros na Universidade Eduardo Mondlane, queixando-se igualmente de não ter sido consultada. O bastonário é Carmo Vaz.

Os dilemas do exprimir


O AF teve a gentileza de me enviar o frontispício de um novo jornal no mercado (interessante a produção incessante de jornais no país), justamente o que está na imagem. E teve o cuidado de me alertar para duas palavras, a primeira mais interessante, em meu entender, do que a segunda: exprime e jornalstas. Por quê interessante? Porque - tenho para mim - importaria saber de que maneira, na distrações da revisão de um jornal, Pacheco exprime (=expressa, significa, revela, diz, traduz) e não espreme ou não gasgana ou não se indispõe (com) o general Pinto. Finalmente: vamos a ver se consigo adquirir o jornal para saber o que significam os cogumelos de Sibindy.

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (2)

Prossigamos um pouco mais esta série.
Confrontados com a crença exposta no primeiro número, o que é que muitos dirão? Dirão, certamente, que se trata de uma crença irracional, pré-lógica. Só o atraso, só o analfabetismo - dirão - podem explicar tão bizarra crença, a crença de que o Estado é capaz de prender a chuva no céu, de que o Estado pode impedir a chuva. Nos casos extremos dirão: coisas de África.
Antes de prosseguir no próximo número, permitam-me sugerir-vos que leiam um livro meu com a capa reproduzida logo abaixo (da primeira edição de 1997; a segunda data de 2003) e que contém inúmeras tentativas de analisar crenças do tipo apontado:

Notas do Zimbabwe leiloadas no ebay


Notas do Zimbabwe com valores astronómicos são leiloadas no ebay. Confira aqui. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, pelo envio da referência.

Renamo, MDD, votos, curandeiros e Deus

No "Canal de Moçambique", os jornalistas Fernando Veloso e Luis Nhachote escreveram sobre o que consideram ser o descalabro da Renamo e sobre um novo movimento chamado Movimento para a defesa da Democracia, cujo dirigente poderá ser Deviz Simango. Confira aqui. Enquanto isso, o jornalista Aunicio da Silva escreveu sobre as peripécias da votação autárquica de 19 de Novembro, com referência a "votos caseiros" (sic) e a curandeiros. Leia aqui. Finalmente, o "O País" cita Dhlakama declarando que a segunda volta das autárquicas em Nacala-Velha só foi possível graças à intervenção de Deus, que impediu a fraude da Frelimo. Consulte aqui.

Ionge: populares acusam autoridades de prender a chuva no céu (1)

Um morto e três feridos graves (dos quais dois polícias) é o resultado de escaramuças ocorridas terça-feira na ilha de Ionge, localidade de Maquivale, distrito de Nicoadala, província da Zambézia, depois que habitantes acusaram as autoridades locais de prender a chuva no céu (sic). Segundo um jornalista da Rádio Moçambique, quando a chuva tarda, é regra local atribuir-se a causa a alguém abastado, dizendo-se que prendeu a chuva no céu. Populares queimaram casas e quando a polícia tentou intervir para deter os responsáveis, foi recebida com paus e pedras (Rádio Moçambique, jornal da manhã, em manchete às 6 horas).
Observação: logo que puder, regressarei a este fenómeno e a esta falsa crença. Entretanto, recorde esta minha postagem aqui.
(continua)

28 janeiro 2009

Escrita grisalha

A ironia, a capacidade de enxertarmos o riso no coração do real, é coisa que absolutamente rareia na nossa blogosfera. Regra geral a escrita é sisusa, grisalha, boletim oficial, frequentemente chata. Mas temos algumas excepções excelentes: a da Zenaida, a do Chagas e a do Paulo. Se omiti alguém, por favor corrijam-me.

Electro Obama


Atenta, sempre saudavelmente irónica, a Zenaida registou este momento da obamania, através de uma loja situada na Av. Karl Marx, perto da Escola 7 de Setembro, na cidade de Maputo, "inaugurada no dia 20 de Janeiro, data da tomada de posse de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos da América."

Cólera: habitantes de Mavanga revoltam-se contra autoridades locais

Reportou a Rádio Moçambique que "a população da aldeia de Mavanga, distrito de Montepuez, em Cabo Delgado, revoltou-se contra as autoridades locais, devido à cólera que já matou pelo menos 11 pessoas naquele região do norte do pais. Os populares realizaram manifestações de repúdio pela alegada incapacidade das autoridades locais no combate à doença, uma situação que foi posteriormente controlada pela polícia. Segundo os residentes da aldeia de Mavanga, duas pessoas terão perdido a vida no Centro de Saúde local e as restantes morreram fora das unidades sanitárias. Entretanto, o administrador de Montepuez, Fernando Natal, deslocou-se de emergência para a aldeia de Mavanga, onde sensibilizou a população sobre as medidas de prevenção de cólera."
Observação: aqui está um problema (que não surge pela primeira vez) que alguns poderão atribuir ao irracionalismo e ao analfabetismo dos habitantes de Mavanga, outros a uma perversa confusão linguística entre cloro e cólera, outros ainda a uma desinformação comandada por uma obscura mão política, enquanto, finalmente, outros ficarão a fazer-se intermináveis perguntas digestivas que tomam por respostas. O problema central é este: por que razão uma crença objectivamente falsa (a de que o governo não se preocupa com a prevenção da doença) pode ser sentida como subjectivamente verdadeira? Uma outra formulação: que problema real se esconde atrás de uma crença errada? Recorde postagens minhas aqui, aqui e aqui. E já que estamos em Cabo Delgado, recorde aqui a história dos leões de Muidumbe. Finalmente: tente ler este meu livro:

Madagáscar: raiva popular contra o presidente-empresário

Há raiva popular em Madagáscar, não muito longe de nós. Em "Tana" e nas principais cidades provinciais, amotinados têem atacado prioritariamente as empresas de Marc Ravalomanana, que, além de ser presidente da República e vice-presidente da Igreja reformada, está à cabeça do primeiro grupo económico do país. O presidente prosperou muito nos seus múltiplos negócios desde a ascensão ao poder em 2002. Esse o resumo de um texto em francês, que faz uso da expressão "presidente-empresário, no La Croix. Se não sabe francês, use o tradutor situado no lado direito deste diário. Já agora, leia um outro texto aqui, em inglês.

Blogue da Casa Branca

A Casa Branca tem um blogue para dar conta das actividades do presidente Barack Obama. Quem o actualiza são os seus assessores. Obrigado ao Eugénio Chimbutane pela envio da referência no mural de recados situado no lado direito deste diário.

Azagaia em Cabo Verde

A fim de participar no III Acampamento Lusófono de Direitos Humanos, parte este sábado para Cabo-Verde o rapper moçambicano Azagaia - Edson da Luz de seu real nome -, a convite da Associação Caboverdiana de Mulheres Juristas em parceria com a Osiwa (Open Society for West Africa) e Osisa (Open Society for Sourtem Africa).
Nota: logo que possível, conto aqui dar conta de uma canção que Azagaia escreveu, dedicada à Beira e a Deviz Simango.

Pedido de compreensão aos leitores

Sabem, recebo, cada dia em maior número, montes de emails, de informações, de artigos, de pedidos de todo o tipo, de sugestões, etc. Acontece que nem sempre tenho capacidade de dar vazão a tudo, de escolher as prioridades. Por outro lado, dado que modero os comentários, nem sempre posso editá-los de pronto, dependendo da minha disponibilidade. O meu perdão e o meu apelo à vossa compreensão caso eu fraqueje em responder tal como e quando cada um gostaria que eu respondesse. Obrigado.

Histórias para um livro à García Márquez (3)

Segundo o AmphulaFax, pilotos-aviadores vão graduar-se este ano em Moçambique sem nunca terem pilotado aviões. Eis a notícia: "Os pilotos aviadores que integram o grupo dos primeiros oficiais das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) que, este ano, vão graduar na Academia Militar Samora Machel ainda não foram submetidos a exercícios práticos, apesar de se encontrarem na fase de tirocínio, período destinado a aulas de prática." Confira a notícia na íntegra aqui. Obrigado ao Eleutério Fenita pelo envio do jornal por email.
(fim)

Histórias para um livro à García Márquez (2)


Fonte: "Magazine Independente" desta semana, p. 27. Onde se lê "regaindo ao assunto", deve ler-se "reagindo ao assunto".
(continua)

Histórias para um livro à García Márquez (1)


Fonte: "Magazine Independente" desta semana, p. 5. Entretanto, segundo o "Notícias" de hoje, "Uma comissão de inquérito liderada pelo Inspector-Chefe do Ministério Público, Rogério Buque, encontra-se a trabalhar desde a última segunda-feira na província de Inhambane, com vista a esclarecer as alegadas denúncias de gestão ruinosa praticada pelo Procurador Chefe, Mourão Infalume Baluce."
(continua)

Este ano: 210 milhões de desempregados

Multiplicam-se as declarações de falência de muitas empresas, sucedem-se os anúncios de desemprego em todo o mundo devido à crise capitalista. Eis uma notícia-síntese: "O desemprego aumenta em todo o mundo, impulsionado pelos efeitos nefastos da crise financeira mundial. Segundo as previsões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, (OCDE) e da Organização Mundial do Trabalho (OMT), até 2010, entre 20 e 25 milhões de pessoas devem ficar desempregadas. Em 2009, o número de desempregados no mundo deve bater o recorde de 210 milhões de pessoas." Confira aqui.
Observação: muitos fenómenos irão doravante suceder-se ou ampliar-se, entre as quais as greves, os levantes e, certamente, os movimentos de xenofobia. Os movimentos fascistas e as histerias belicistas também deverão ser tidas em conta. Mas mais fundamentalmente ainda: qualquer problema na zona A poderá repercutir em N zonas sem que nos apercebamos das relações.

27 janeiro 2009

Desemprego e protesto global na Europa

A Europa corre o risco do desemprego e do protesto social generalizados. Em algumas semanas, muita gente desempregada. Os jovens desesperados com os pequenos empregos sem futuro. Confira aqui, em francês, no La Croix. Se não sabe francês, use o tradutor situado no lado direito deste diário.

Viajar na vida, vidar na viagem

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Ainda sobre o "acordo" de Pretória


A SADC afirmou que um acordo tinha sido alcançado no sentido da formação de um governo inclusivo no Zimbabwe. Aguardo ler o comunicado desse acordo. Enquanto isso, do lado do MDC-T nada parece resolvido. No que me concerne, creio que o tal acordo continua a trilhar os carris do espírito da ZANU-PF antes da cimeira de Pretória: primeiro tomamos posse, eu Mugabe fico presidente, tu Tsvangirai ficas primeiro-ministro e tu, Mutambara, ficas vice. Depois, meus irmãos, vamos discutir a história da alocação dos ministérios estratégicos, da distribuição dos governadores, etc. Portanto, no fundo creio que em lugar de um acordo, se obteve um desacordo. E, evidentemente, o povo do Zimbabwe ficou de fora, não foi consultado. Vamos aguardar. Leia aqui o The zimdaily. Cartoon reproduzido daqui.
Adenda 1 às 23:02: leia o "O País" aqui.
Adenda 2 às 23:07: leia os comunicados da SADC e do MDC-T e saiba como Mugabe, feliz e forte agora com o apoio global da SADC (fica assim ofuscado, temporiamente pelo menos, o risco de ser acusado de vários crimes), garante que os desejos do MDC serão "tidos em conta" logo que o acordo seja implementado, aqui.

Maria Moreno contra Dhlakama

Citada pelo "O País", a chefe da bancada parlamentar da Renamo, Maria Moreno, afirmou não fazerem sentido as declarações de Afonso Dhlakama, presidente do partido, "segundo as quais vai empossar à força os seus candidatos nos municípios onde considera ter havido “crime eleitoral”. Acrescentou que não foi contactada para o efeito e que não vai alinhar em semelhante empossamento. Confira aqui. Enquanto isso, o ministro da Administração Estatal, Lucas Chomera, disse que o Estado tem meios coercivos para reprimir acções ilegais. Leia aqui.
Adenda 1: Maria Moreno não é uma deputada júnior, é a chefe da bancada parlamentar da Renamo. A sua posição mostra que se ampliam, dentro do partido, as vozes contra as tomadas de posição de Dhlakama - aparentemente unilaterais -, justamente no momento em que este está em pré-campanha na província de Nampula.
Adenda 2: um leitor chamou-me a atenção para um trabalho publicado do "Notícias" de hoje, dando conta de uma posição idêntica, a de Eduardo Namburete, que foi candidato da Renamo à presidência do município de Maputo nas eleições de 19 de Novembro do ano passado.
Adenda 3 às 16:48: tanto quanto a memória me diz, Máximo Dias era quem, vez que vez, uma no cravo outra na ferradura, se permitia discordar publicamente de Dhlakama. Mas Dias não era nem é da Renamo, era e é apenas um aliado da Renamo via Monamo. Mas desde que Deviz Simango foi subitamente substituído por Manuel Pereira como candidato da Renamo à presidência do município por exigência das "bases" - desastrada basagem esta! - mas com voz de Dhlakama, os protestos começaram não ao lado da Renamo com Máximo Dias, mas dentro da Renamo com alguns dos seus deputados, fenómeno novo. As posições de Maria Moreno e de Eduardo Namburete parecem fechar agora esta abóboda parlamentar do partido. Vamos a ver se Dhlakama não fica reduzido ao círculo dos seus generais, ele incluído, no que concerne à liderança. Partido de generais, democracia de menos (algo parecido foi escrito há dias neste diário, não me ocorre por quem).
Adenda 4 às 23:05: o presidente Guebuza disse estar disposto a falar com Dhlakama desde que não seja para alterar a lei. Confira aqui.