Até amanhã-2008: por um mundo mais justo
Amanhã é 2008 para muitos.Para vós, um forte abraço (homens) e um forte beijo (mulheres).
Que em 2008 o mundo se torne mais solidário, mais justo, que menos pessoas sofram.
Até amanhã.
Amanhã é 2008 para muitos.

"Apenas entre 100 a 500 mil dos aproximadamente 20 milhões de moçambicanos é que usufruem da internet em Moçambique."
O que se segue não é a letra de uma canção de Azagaia ou do país da marrabenta da banda Gprofam, não é um texto de Custódio Duma ou de Noé Nhantumbo, tudo coisa e gente nossas, mas um trabalho escrito em Dezembro de 2001 por Fernando Bessa Ribeiro, professor universitário português: "Observando, deste lado do Índico, o desenvolvimento do muito gasto e universalizado programa de "reajustamento estrutural", tudo se torna transparente. Tal como no passado, na época dos impérios coloniais, a periferia continua sujeita ao domínio e aos interesses dos que hegemonizam o sistema mundial. Neste contexto, perante o descalabro africano e décadas de sucessivos falhanços nas políticas de desenvolvimento, Moçambique é utilizado como tábua de salvação, um exemplo da boa transição a mostrar ao mundo por aqueles que ditam as regras que o conduzem. A situação no terreno é, e eles sabem-no, bem diferente. A vida do bom aluno continua miserável e, sobretudo, crescentemente dependente da ajuda externa. Apresentando-se as coisas deste modo, ganha sentido a convocação saudosa do tempo de Samora Machel feita pelos mais pobres e pelos que, não o sendo, conservam a decência, essa qualidade humana ausente e esquecida nestas paragens. Nesse tempo, hoje diabolizado pelo pensamento único e enjeitado pelos arautos locais do neoliberalismo, a dignidade não era uma palavra vã. Nesse tempo, de pesadas dificuldades e grandes carências, o pouco que existia era partilhado com razoável equidade. Nesse tempo, do carapau transformado em prato único de todas as refeições, o roubo e a corrupção eram combatidos com energia e, sobretudo, com boa-fé. Hoje, decorridos quinze anos do desaparecimento trágico de Samora e quase dez do fim da guerra de desestabilização, nas cidades e nos campos, viver é cada vez mais um exercício de vida ou de morte, embora não seja menos certo que uma pequena minoria tenha prosperado a uma velocidade estonteante."
Do Jazzy aka 5 Elemento CEO, escrevendo no Jardim para o mundo: "O processo de escrita é muito importante no desenvolvimento do artista. Rappers como poetas urbanos, devem apegar-se cada vez mais a esta técnica arcaica, rupestre e cada vez mais moderna e importante no desenvolvimento do ser humano." (a imagem pertence ao blogue de onde a passagem foi reproduzida)






Sim senhor, digo-vos que vale a pena ler este delicioso texto: "Geração diploma é aquela que gosta de carregar chumaços volumosos para fazer toda a gente saber que eles são produtores do saber, porém, o seu saber resume-se a carregar esses volumes. Geração diploma é aquela que olha verticalmente a quem não possui títulos enquanto que na verdade, devia olhar horizontalmente qualquer ser humano uma vez que um dos grandes postulados da pós-modernidade é tratar (de forma igual) os homens não por serem seres sociais mas sim por serem seres humanos."
O presidente do Partido Unido de Moçambique e de Liberdade Democrática (PUMILD), Leonardo Francisco Cumbe - partido sem qualquer expressão votal no país -, "considera ser difícil exercer a actividade política no país, devido à falta de sensibilidade tanto do Governo assim como do sector privado em desembolsar apoios a iniciativas de género."
Toros de madeira preciosa ilegalmente abatida encontram-se abandonados e espalhados a 80 quilómetros da cidade de Mocuba e nos distritos de Maganja da Costa, Pebane, Gilé, Morrumbala, Mopeia, Guruè e Milange, província da Zambézia - eis o que o jornal "Notícias" constatou no terreno. Enquanto isso, o director provincial de Agricultura da Zambézia, Mahomed Valá, "reconheceu a anarquia que se instalou na área das florestas" (os nossos reconhecimentos a este nível são sempre interessantes).
O rapper moçambicano Edson da Luz, Azagaia de nome artístico - frequentemente referido neste diário -, foi eleito figura do ano pelo "Canal de Moçambique", que o tratou por "guerrilheiro dos sentimentos". Este jornal apresenta, assim, uma diferença em relacção aos outros jornais no tocante ao tipo de pessoas seleccionadas, até porque seleccionou também, como segunda figura, o Parque Nacional da Gorongosa.
Através da colega Tereza Cruz e Silva, do Centro de Estudos Africanos, recebi por email uma nota de repúdio enviada pelo sociólogo Álvaro Pereira, do Núcleo de Ecologia Social/DED/LNEC (Avª. do Brasil, 101 ; 1700-066 LISBOA PORTUGAL, Telef.: + 351 218 443 588, email: apereira@lnec.pt)
A luta de libertação nacional conduzida pela Frelimo é um excepcional laboratório de estudo de várias coisas. Uma dessas coisas é o processo de produção simbólica do inimigo. No livro "Lutar por Moçambique" de Eduardo Mondlane, existe um admirável esforço para identificar o inimigo, o inimigo colonial. Aí, num exercício analítico pleno mostrando como funcionava a sociedade colonial, é claro que o inimigo não é o povo português, mas o sistema colonial. Creio que não foi nada fácil convencer muitas pessoas de que o inimigo não era o português, mas um determinado sistema que produzia dominadores e dominados. Creio, ainda, que a sistematização do conceito atingiu a partir de 1968 maior rigor, com a liderança de Samora Machel. Uma luta armada diferente, justa, só poderia ter sentido se claro fosse o conceito de inimigo. Mas não foi tudo. Se o inimigo era socialmente determinado, só o podia ser (1) no interior de uma concepção que lesse a sociedade dividida em interesses diferentes, antagónicos, e (2) no interior de uma concepção de sociedade de futuro diferente. Quer dizer, a leitura do colonialismo como sistema social de opressores estrangeiros/oprimidos locais ligou-se intimamente, pouco a pouco, ao nível do grupo liderante da luta, à recusa de uma sociedade nacional que fosse habitada pela mesma dicotomia com Moçambicanos reproduzindo o sistema. Assim, Mondlane escreveu no livro citado não fazer sentido que, atingida a independência, o sistema social continuasse a ser o capitalista. Depois, numerosos textos de Samora Machel e da Frelimo ampliam consideravelmente essa posição. O rigor (em processo e em luta) posto na produção do conceito de inimigo e de uma sociedade diferente, pode ser documentado de várias maneiras. Uma delas está no facto de que os guerrilheiros da Frelimo nunca transformaram o país num holocausto no decorrer da luta armada. Tirando algumas excepções, os alvos foram exclusivamente militares e o conjunto de vítimas e de estragos foi excepcionalmente pequeno. Não foram os Portugueses que foram escolhidos como alvos, mas os soldados, os símbolos e os artefactos que os transformavam em peças de um sistema que oprimia, os Moçambicanos cá, os Portugueses lá.
"Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento, de posse da verdade absoluta" (Friedrich Nietzsche)
Faz tempo que aqui não posto os meus perversos aforismos. Aguardem por eles nas próximas horas.
O presidente do Partido Socialista, João Likalamba, abandonou o Bloco da Oposição Construtiva, liderado pelo Homo Sibindycus. Enquanto o Sr. Likalamba pede para não se brincar com ele, o Homo Sibindycus chama-lhe míope político. Mas o mais interessante para mim na notícia a cinco colunas no "Notícias" de hoje não é esse exercício de comadres desavindas, mas as aspas colocadas pelo jornal no garrafal título, a saber: ""Socialistas" desistem da oposição construtiva". Enquanto isso, o sheique Abdul Carimo afirmou que a democracia regrediu este ano no país.
Certos tipos de comentários racializantes regressados a este blogue por via de comentários, levam-me a recordar passagens de um livro meu sobre racismo e etnicidade, produto de uma pesquisa que dirigi em cinco cidades do país há oito anos:
Os jornalistas do semanário "Savana" elegeram o Conselho Constitucional como figura do ano. Atribuíram ainda menções honrosas ao Instituto Nacional de Gestão de Calamidades e ao Instituto Nacional de Estatística. Como pior figura do ano, elegeram o ministro da Defesa, Tobias Dai, claramente devido às explosões de Março no paiol de Malhazine. A seguir ficou o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Leonardo Simão, um dos proprietários da empresa Golden Roses (p. 2).
Esse o título de um livro em três volumes da autoria do falecido Aquino de Bragança e do sociólogo norte-americano Imannuel Wallerstein, publicado em 1978 pela editora portuguesa "Iniciativas Editoriais". Trata-se de uma rica colecção de intervenções de dirigentes dos então movimentos de libertação nas ex-colónias portuguesas e na África do Sul. No calor da luta, a pergunta era sempre a mesma: quem é o inimigo?
De acordo com o seu presidente, António Muedo, o PALMO, pequeno partido político sem qualquer relevância votal no país, acaba de se palmar ao partido no poder, a Frelimo.
Não, não se trata de Azagaia, trata-se de um jornalista do "Notícias", o Mouzinho de Albuquerque, que, neste fim de ano, em termos de balanços, decidiu que a demagogia tem um limite: "Só que, nalguns casos, quer aceitemos quer não, os pronunciamentos de alguns dirigentes sobre o bom desempenho anual das instituições de que são “timoneiros” tem constituído um repetido hábito demagógico pois não parece corresponderem efectivamente à realidade vivida no terreno, em termos de resolução de grandes problemas que apoquentam as populações."
Segundo o semanário "Magazine Independente" de hoje, o governador de Inhambane, Francisco Meque, decidiu combater a feitiçaria e a inveja na província reforçando os poderes dos chefes tradicionais da província, exigindo em comícios que estes denunciem às instituições adequadas do Estado todos os jovens "que acusam os pais de feiticeiros e os que fingem que se enamoram de raparigas para as engravidarem e depois abandoná-las" (p. 10).
O semanário "Magazine Independente" tem hoje como sua manchete a selecção do que chamou "figuras do ano": o ex-presidente da República, Joaquim Chissano, a ministra do Trabalho, Helena Taipo, e o ministro da Energia, Salvador Namburete.
Os mandarins são pessoas saudável e honestamente subtis. A sua proposta de diálogo inteligente disfarça pela bonomia o que é sempre o seu objectivo último: mostrar a superioridade ngungunhânica do seu pensamento. Eles sabem disso, mas sempre pretendem ser madres teresas de calcutá (o bom Schopenhauer era suficientemente calmo e irónico para revelar isso e falar da "obstinação natural ao homem"). Essa a base do competente maquilhado de desinteressado: onde afirma combater pela Verdade, combate pela sua verdade paroquial. Transforma em interesse universal misericordioso o seu interesse privado ciumento.
Estamos ainda a festejar a reversão da Hidroeléctrica de Cabora Bassa, mas o economista Eugénio Chimbutane interroga-se e cabora bassa-se sobre várias coisas a esse respeito: "Ainda sobre a HCB, veja neste LINK: HCB EM NÚMEROS. Trata-se de dados financeiros desta empresa nos últimos 5 anos. O fraco desempenho económico e financeiro da HCB começa a suscitar outras questões que merecem investigação. Como foi determinado o preço da venda da participação dos portugueses (USD 950 Milhões) à Moçambique? Será que pagámos um preço justo? Será que a HCB revertida valia tanto assim? Os números tendem a dizer que não!"
Tal como o Godot de Beckett nunca chega, no Zimpeto, periferia da cidade de Maputo, 40 famílias continuam a aguardar que o Gabinete de Apoio e Reconstrução cumpra com o que prometeu há nove meses e lhes entregue as casas que substituam as que foram destruídas quando das explosões em Março no paiol de Malhazine: "Luísa Zucula, uma das vítimas que estava no local para receber as chaves da sua casa, disse que “as festas são para eles que têm casas, nós não teremos nenhuma festa porque estamos preocupados com as nossas casas”. Ela veio aqui e não nos disse quando é que vão nos entregar as casas, só disse para esperarmos”, precisou questionado-se, depois; “mas é para esperarmos até quando?”
Termino hoje esta série muito breve deixando mais algumas ideias frustes, nascidas da leitura de um livro clássico de Simone de Beauvoir (pode ser que retome o tema nesta oficina onde tudo é provisório).
Parece que há discussão, febre de novo, de coisa diferente em torno da toponímia da cidade de Maputo, que deve ser mudada (diz-se, insiste-se), o que é salutar. Mas não seria saudável que a discussão fosse alargada ao país, em termos de referendo, para que os futuros nomes das nossas artérias não fiquem cativos dos interesses de algumas dezenas de cidadãos, por mais bem intencionados que sejam? (foto reproduzida daqui).
Consulte aqui, em português, um relatório preliminar para consulta, elaborado este ano, que procura analisar a governação em Moçambique, relatório que foi elaborado pelo Departamento para o Desenvolvimento Internacional do governo britânico.
Eram 50, as motorizadas com que os agentes da Brigada Anti-Crime (braço da Força de Intervenção Rápida) começaram - briosos e intimidadores, capacete protector e colete anti-bala, aos pares em cada veículo - a circular na cidade de Maputo desde Junho de 2006. De então para cá as avarias e as emboscadas (sic) sofridas nas artérias reduziram o efectivo motorizado para dez. Apesar disso, um porta-voz da Polícia afirmou que os agentes da brigada vão trabalhar nesta quadra festiva "com novas estratégias no terreno".




